21 de dez de 2015

Primeira turma exclusiva para assentados da reforma agrária se forma em veterinária na Universidade Federal de Pelotas/RS

Jaqueline Silveira
Dos assentamentos de reforma agrária para os bancos escolares da universidade e, finalmente, com o diploma de um curso superior em mãos. A história é de 45 formandos do curso de medicina veterinária da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) e começou há cinco anos, depois de superados alguns obstáculos.
Na tarde da última sexta-feira (17), ocorreu a formatura dos estudantes que fazem parte da 1ª Turma Especial de Medicina Veterinária, uma parceria entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a (Ufpel), por meio do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). O curso foi uma reivindicação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e os estudantes são provenientes de assentamentos de seis Estados: além do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Ceará, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
“Não é só uma conquista individual, mas uma conquista da classe trabalhadora”, resumiu Cristina de Fragas, 28 anos, formanda do assentamento da antiga Fazenda Annoni, localizado em Pontão, região norte do Estado.
O convênio entre a Ufpel e Incra foi assinado em 2007, mas o curso só iniciou no primeiro semestre de 2011, depois de enfrentar a resistência de entidades ruralistas de Pelotas que temiam uma “invasão de sem-terra” na cidade e, ainda, uma ação do Ministério Público Federal (MPF). Na época, o MPF tentou barrar o curso, alegando que a criação de uma turma exclusiva com filhos de assentados da reforma agrária, além de ferir o princípio da gestão democrática da instituição de ensino e a própria autonomia universitária, acarretaria em tratamento diferenciado aos estudantes, em detrimento de todos que não pertencem “a esta minoria” e que se encontrem em situação semelhante. A batalha judicial chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) que se posicionou, no final de 2010, a favor da abertura do curso.
Convênio para implantação do curso foi firmado em 2007, mas as aulas só começaram em 2012 devido a resistências e uma batalha judicial. Foi um preciso um novo vestibular para completar a turma |Foto: Divulgação Pronera
Convênio para implantação do curso foi firmado em 2007, mas as aulas só começaram em 2012 devido a resistências e uma batalha judicial. Foi um preciso um novo vestibular para completar a turma |Foto: Divulgação Pronera
Em 2011, as aulas começaram, entretanto foi preciso fazer um novo vestibular para completar as 60 vagas – a seleção havia ocorrido em 2007. Representante da Coordenação Pedagógica do curso de Medicina Veterinária pelo Pronera, Tiago Cassol afirmou que o currículo foi o mesmo aplicado pela Ufpel aos estudantes do curso regular e que o programa do governo federal não teve nenhuma interferência. Até o início do 5º semestre, informou Cassol, a carga horária era organizada de forma que os alunos pudessem ficar 70 dias em sala aula e 60 dias desempenhando atividades acadêmicas e pesquisa prática nos assentamentos de onde são provenientes. A partir do 5º semestre, com o começo das aulas nos laboratórios, os estudantes permaneceram no campus da faculdade.
Nos cinco anos do curso, os alunos ficaram em um alojamento mantido pela Ufpel, de acordo com o convênio, e faziam as refeições do Restaurante Universitário (RU). A turma começou com 60 alunos, mas 45 receberam o diploma na última sexta-feira. Isso porque os estudantes não podem reprovar nas disciplinas e os que tiveram problemas de desempenho acabaram excluídos do curso. “O curso tem início e fim determinado. Quem não atingiu a nota é automaticamente excluído”, explicou Cassol.
“Fizemos uma força-tarefa para que ninguém ficasse para trás, foi um trabalho coletivo”, recordou Cristina, ajuda entre os estudantes com mais dificuldades com o objetivo de evitar a exclusão do curso de Medicina Veterinária.
Com o canudo na mão, boa parte dos estudantes voltará para seus assentamentos contribuir com o trabalho|Foto: Leandro Molina
Com o canudo na mão, boa parte dos estudantes voltará para seus assentamentos  para contribuir com o trabalho|Foto: Leandro Molina
Com o canudo na mão, boa parte dos estudantes voltará para seus assentamentos para contribuir com o conhecimento adquirido nos cinco anos de faculdade. Há, segundo o representante da Coordenação Pedagógica do curso, uma carência de médicos veterinários nos assentamentos e uma grande demanda de trabalho na área. “Essa é a orientação e, além de serem camponeses, eles têm esse diferencial”, destacou Cassol, sobre o fato de conhecerem a realidade de suas comunidades e somarem, agora, o conhecimento técnico. “A gente está se formando para contribuir com as famílias assentadas”, completou Cristina, que planejava dividir o trabalho com a realização de um mestrado.
De Bituruna, cidade do Paraná que faz divisa com Santa Catarina, Jucélio Batista, 35 anos, vai voltar para o assentamento de sua cidade para ser o médico veterinário responsável pela agroindústria de beneficiamento de mel. “Foram cinco anos de luta e a ideia é contribuir de volta com o movimento. E tem lá uma demanda específica: precisa de um profissional responsável”, contou ele, na véspera da formatura, sobre os futuros planos em Bituruna. De uma família de 10 irmãos, Batista é o primeiro a se formar num curso superior. A maioria dos estudantes, segundo ele, não teria condições de fazer o curso, em virtude das condições financeiras, não fosse a oportunidade de uma turma especial.
Dezenas de familiares assistiram à conquista alcançada pelos estudantes provenientes de assentamentos de seis Estados|Foto: Leandro Molina
Familiares assistiram à conquista alcançada pelos estudantes provenientes de assentamentos de seis Estados|Foto: Leandro Molina
A primeira turma homenageou o ex-deputado Adão Pretto (in memoriam), o escolhendo como patrono. “Foi feita uma discussão na turma e ele foi escolhido por toda a história no movimento”, justificou Cassol. Adão Pretto foi um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e completaria 70 anos neste ano. Ele morreu em fevereiro de 2009.
Em breve novos médicos veterinários devem ser disponibilizados nos assentamentos, já, desde 2013, 60 alunos frequentam a Ufpel. Eles fazem parte da segunda turma especial. Em outros Estados há turmas especiais para filhos de assentados em cursos como o de Agronomia, em Goiás.