31 de ago de 2014

Rússia deve lançar sua arma secreta: operações no inverno!


LEONÍDIO PAULO FERREIRA


Quem leu como foram derrotados Napoleão e Hitler sabe que o frio é a arma secreta da Rússia. Em 1812, esmagou os franceses. Em 1942-1943, desferiu aos nazis um golpe fatal em Estalinegrado. Promete ser agora decisivo na crise na Ucrânia, explicando por que Putin prolonga o braço-de-ferro com o Ocidente. Quando o Leste Europeu gelar, o Kremlin tirará vantagem.
Talvez se deva falar antes em xadrez e não em braço-de-ferro para explicar esta crise iniciada quando o presidente Ianukovich desistiu de uma parceria da Ucrânia com a União Europeia. Manter-se na órbita de Moscovo, tradição há quatro séculos, valeu-lhe ser deposto ao fim de três meses de protestos. Mas a queda do aliado não foi um xeque-mate para os interesses do Kremlin. Aproveitando que o poder caíra na rua em Kiev, Putin promoveu a revolta da maioria russófona da Crimeia, que num referendo-relâmpago em março virou as costas à Ucrânia.
Um triplo objetivo foi assim atingido: advertir os novos líderes ucranianos do risco de se lançar nos braços do Ocidente; mostrar à União Europeia e à NATO que os interesses estratégicos são intocáveis (Sebastopol, base da frota do mar Negro, fica na Crimeia); garantir o apoio da opinião pública russa para uma partida dura, que traria sanções económicas.
Não se pode dizer que as jogadas posteriores de Putin tenham sido da mesma valia. A revolta da população russa no Leste da Ucrânia mostrou que alguns peões não são controláveis. Basta pensar no derrube do avião malaio em junho ou na recente bazófia de um chefe rebelde de que soldados russos combatem ao seu lado, mas a título privado, pois abdicaram das férias. Nem Putin quer pôr em causa a respeitabilidade da Rússia nem é seu estilo falar quando mexe peças.
Ao cortar os direitos dos russófonos de Donetsk, os chefes de Kiev cometeram um erro grave, que o entretanto eleito presidente Porochenko tenta corrigir. Daí a prever-se que Putin anexará o Leste ucraniano é abusivo. Os objetivos iniciais mantêm-se, e fora o bluff, soma-se a exigência de um sistema federal na Ucrânia. Para tal precisa de ganhar tempo. Talvez consiga.
Não só Kiev tarda em reconquistar Donetsk, como vê surgir nova frente em Mariupol. A NATO levanta a voz mas nem imagina uma guerra com a Rússia. E a União Europeia, por muitos ultimatos que faça, revela as divisões ao escolher para presidente do conselho um falcão, o polaco Tusk, mas a entregar a diplomacia a uma italiana com fama de apaziguadora.
Com a chegada do frio, Moscovo terá meios para retaliar: é que os bálticos dependem 100% do gás russo, a Polónia 59%, a Alemanha 37%. Além do aquecimento das casas, esta última tem de manter competitiva uma economia que abdicou do nuclear. A própria Ucrânia precisa do gás para não gelar. É pois no General Inverno que Putin aposta para acabar um jogo que não pode perder.