Mostrando postagens com marcador João Pedro Stedile. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador João Pedro Stedile. Mostrar todas as postagens

21 de dez. de 2024

LFS Rio Grande do Sul - João Pedro Stédile recebe medalha do Mérito Farroupilha

LFS Rio Grande do Sul -

 

João Pedro Stédile recebe medalha do Mérito Farroupilha.

Leia mais: https://capitaofernandors.blogspot.com/2024/12/lfs-rio-grande-do-sul-joao-pedro.html


Receba a LFS Rio Grande do Sul no seu whatsapp: https://chat.whatsapp.com/JF629HWgfZZ7ju6hTgHQYA


Publicidade: Conheça as Ofertas do Dia da Amazon. Produtos com até 70% de descontos: https://amzn.to/49OAOVN


--------------------





11 de jan. de 2022

O ano da esperança de mudanças - Artigo de João Pedro Stedile na Folha de São Paulo - 11 jan 22

 O ano da esperança de mudanças

 

É necessário que a população construa, participe e lute por um novo projeto de país

 

 

João Pedro Stedile

Economista, é militante do MST e da Frente Brasil Popular

 

Não conseguimos mudar o governo, apesar dos crimes cometidos e de mais de 130 pedidos de impeachment, mas recuperamos no ano passado as ruas com mobilizações expressivas em mais de 500 cidades do país. A partir desse processo, começamos 2022 com a unidade das forças populares em torno de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e recolocando-o como porta-voz das necessidades urgentes de mudanças na política e na economia nacional.

 

O ano que passou foi duro para o povo brasileiro, cujo maior símbolo foi a perda de milhares de vidas pelo negacionismo e incompetência do governo federal. Outros milhões foram jogados na sarjeta, sem trabalho e renda, com a volta da fome, da inflação dos alimentos, dos combustíveis e dos aluguéis. As necessidades da maioria são imensas e, certamente, teremos um período marcado por lutas em defesa de soluções urgentes para esses problemas, que não podem esperar as eleições.

 

Nunca se viu tantos crimes ambientais praticados pelo capital em todos os biomas. A mineração e o agronegócio, além do uso intensivo de agrotóxicos, afetam a vida das pessoas, com mudanças climáticas, contaminação do ar, água, solo e dos produtos agrícolas.

 

 

No campo, as políticas públicas para produção de alimentos, como a distribuição de terras, o programa de compra antecipada de alimentos e da merenda escolar —além de assistência técnica, habitação rural e programas de educação para assentados— foram paralisados. Na fronteira agrícola, multiplicaram-se ações de violência, de invasões a assassinatos contra povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas.

 

Não bastasse isso, o governo e sua trupe neofascista tentaram impor derrotas ao MST efetuando despejos em áreas simbólicas, como o Centro Paulo Freire, em Caruaru (PE), o assentamento de Campo do Meio, em Minas Gerais, e o uso ilegal da Força Nacional em assentamentos do sul da Bahia. Nas três ocasiões, recebemos solidariedade e impedimos os despejos. Conseguimos derrotar a insanidade da repressão.

 

Mesmo em uma situação adversa, entregamos milhares de toneladas de comida de forma solidária a famílias necessitadas pelo Brasil sob o lema "plantar alimentos para cultivar solidariedade". Enquanto o capitão insano passeava de jet ski no final do ano, levamos diversos caminhões de comida para o sul da Bahia, como fizemos nos últimos dois anos em que nos dedicamos a aumentar a produção de alimentos e fortalecer as cooperativas da reforma agrária.

 

Dessa forma, contribuímos para o processo de pedagogia de massas para conscientizar e preparar o povo para se mobilizar em torno de um novo governo. Somente a unidade em torno de um novo projeto nacional viabilizará a reorganização da sociedade para enfrentar a perversidade da maior crise capitalista que já vivemos.

 

Construir um projeto não é apenas um exercício de redação de ideias. É, sobretudo, debater com a população, a partir dos setores organizados, a gravidade da crise, as suas causas, as medidas emergenciais e as mudanças estruturais. Para resolver os problemas do povo brasileiro, não basta eleger Lula. É necessário que a população construa, participe e lute por um novo projeto de país.

 

Por isso, existe uma ampla unidade entre as forças populares para combinar uma campanha de massas com o debate em torno de propostas de um novo projeto popular para o Brasil, por meio da organização de comitês populares em todos os espaços possíveis.

 

Assim, espero que 2022 seja um ano de conscientização e participação popular, como sonhava Paulo Freire, para discutir um projeto de país como sempre defendeu Celso Furtado, e assim superarmos a pobreza e a fome, como lutou Josué de Castro e tantos outros que nos antecederam.


Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2022/01/o-ano-da-esperanca-de-mudancas.shtml

23 de mar. de 2019

MST - Comunicado nº 24/2019 - SÓ A GREVE OPERÁRIA JÁ NÃO AGLUTINA AS MASSAS - Entrevista de João Pedro Stedile ao Tutameia

Comunicado nº 24/2019
 São Paulo, 22 de março de 2019
 
SÓ A GREVE OPERÁRIA JÁ NÃO AGLUTINA AS MASSAS



A viagem de Jair Bolsonaro aos EUA deixou clara a subordinação descarada aos interesses do capital norte-americano. Essa subserviência do governo é uma jogada burra da burguesia brasileira. Bolsonaro é um presidente despreparado e foi eleito por uma fraude; ele não tem base social real da maioria da população brasileira. As contradições entre os grupos que estão no poder vão inviabilizar o governo.

A análise é de João Pedro Stedile ao TUTAMÉIA. Dirigente histórico do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), ele afirma: “Lutar pela liberdade do Lula é lutar para se recompor a democracia no Brasil. Precisamos mostrar para a população que o Lula só está preso porque eles precisam calá-lo. Ele pode ser o líder da maioria do povo para fazermos um grande mutirão nacional para nos contrapormos a esse governo”.

Para ele, o atual governo “não tem projeto de desenvolvimento nacional e não tem interesse em resolver os problemas do povo. É fundamental termos um outro projeto e um outro debate na sociedade. Enquanto o Lula estiver preso vai ser muito difícil fazermos esse debate na sociedade e recuperarmos espaços de democracia. Temos que nos livrar dessa mentira de que o Lula é ladrão, provar para a população que o Lula é um líder popular e seu único compromisso é com as mudanças a favor do povo”.

E segue:

“Lula tem o papel fundamental de unir o povo. O afastamento do Lula gera também disputas internas no partido, oportunismos de todo o tipo. O Lula solto recomporia a unidade dentro do PT e entre os partidos de esquerda”.

PEITAR O GOVERNO E O CAPITALISMO

Na visão de Stedile, não há outros líderes da estatura de Lula porque “quem produz os líderes não são os partidos, mas o movimento de massa. E houve um refluxo do movimento de massas nos últimos 20 anos. A própria esquerda se confiou nos espaços institucionais e deixou de estimular mobilização popular”, diz.

Sua avaliação é a de que o movimento popular segue em refluxo. Pode ser que a ameaça de fim da aposentadoria pública e/ou a crise econômica levem à “eclosão de uma rebeldia no Brasil” –o que depende também da capacidade de organização. Stedile lembra que, no passado, o “reascenso era baseado no operariado industrial, no sindicato e no partido. Era quando o capitalismo industrial era o hegemônico. Agora é o capitalismo financeiro”.

Assim, declara: “A esquerda terá que ser mais criativa e desenvolver novas formas de organização. Só a greve operária já não aglutina mais as massas. A greve por si só não tem se revelado uma forma de se fazer o reascenso do movimento de massas. A esquerda precisa sentar , ter humildade e ser mais criativa e ver outras formas: pela cultura, por outras manifestações de massas que possam ser peitar o governo, peitar o capitalismo”.

DERROTAR O SISTEMA FINANCEIRO

“Nenhum intelectual sério hoje defende o capitalismo. O capitalismo já é do passado.O capitalismo não resolve mais o problema da humanidade. No passado, ele foi progressista. Depois da Segunda Guerra Mundial, as políticas social-democratas capitalistas resolviam os problemas das massas. Hoje, o capitalismo já está no seu final. O capitalismo já não é solução. Ninguém pode defender o lucro como solução para os problemas da humanidade. O capitalismo já não é solução para a humanidade. O grande debate ideológico que se abrirá é sobre o que vamos construir no seu lugar”, diz.

É por essa razão, segundo ele, que voltam a ter presença as ideias do socialismo. Ele acha mais prudente falar em sociedade igualitária, socialização dos meios de produção, “que todos possam ter renda, trabalho, escola, casa, emprego, saúde, alimento saudável”.

Stedile defende que é preciso derrotar o sistema financeiro –“o inimigo principal de todos nós e a porta para derrotarmos o capitalismo e entrarmos para um novo modo de produção. E acrescenta: “Os nossos inimigos principais são os bancos e as corporações transnacionais.Sobre essa plataforma, nós conseguiremos ampla base social em todo o mundo”.

VENEZUELA, LULA

Na entrevista ao TUTAMÉIA, Stedile, 65, tratou de Venezuela, da Campanha por Lula Livre, da destruição promovida pelo governo Bolsonaro e de novos paradigmas para o desenvolvimento do país.

“O que está em jogo na Venezuela é com quem vai ficar com a renda petroleira. Se com as empresas petroleiras americanas ou com o povo da Venezuela”, resume.

“Trump está cada vez mais desmoralizado. Ele quer o petróleo [venezuelano] e precisa de uma causa externa. Ele vai perder as eleições. A derrota de Trump abrirá uma nova situação na geopolítica internacional”, afirma.

Stedile convocou manifestações por Lula Livre de 7 a 10 de abril. “Se alguém tinha alguma dúvida de que o Moro trabalha para os americanos, agora ele deixou atestado. Moro foi na CIA e ao FBI prestar conta para os seus verdadeiros patrões. Temos que protestar contra o Moro. O Moro não tem moral”.

EMBRAER É MAIS IMPORTANTE DO QUE A PECUÁRIA

Na avaliação de Stedile, “o Brasil precisa de um novo modelo agrícola que não esteja fundado no lucro e na produção de commodities para o exterior. O agronegócio como modelo de economia nacional já está falido. É uma burrice utilizar um território tão amplo como o brasileiro (300 milhões de hectares agriculturáveis), com soja, cana, milho, pecuária. Nenhuma economia do mundo pode se sustentar em dois ou três produtos agrícolas para exportação. E competimos com os EUA. Comprar briga com a China, que é nosso parceiro, é uma burrice. Essas contradições da geopolítica internacional vão aflorar mais rápida ao que imaginávamos”.

Para um projeto de verdadeiro desenvolvimento nacional, diz, “precisamos usar esses 300 milhões de hectares de forma mais racional. Temos que produzir alimentos saudáveis para toda a população, estimulando a pluricultura, não a monocultura. Todas as exportações de carne bovina no brasil representam 5 bilhões de dólares. A Embraer, sozinha, com os seus 100 hectares em São José dos Campos e doze mil operários e alta tecnologia exporta por ano 6 bilhões de dólares. A Embraer é mais importante para a economia brasileira do que a pecuária extensiva”.

Como exemplo dos descaminhos do modelo, o dirigente do MST fala da evolução econômica de Ribeirão Preto, antes baseada em várias culturas agrícolas. Hoje, “Ribeirão Preto só tem cana. A população carcerária de Ribeirão Preto é de 2.700 presos A população rural é de 2.400. Isso é modelo de sociedade? Em que a população carcerária é maior do que a população que se dedica à agricultura? Claro que não”.

Stedile discorre também sobre o impacto ambiental do uso de venenos nas monoculturas. E afirma:

“O Brasil precisa de um novo modelo agrícola que não esteja fundado no lucro e na produção de commodities para o exterior. Precisamos de outros paradigmas:

1. Produzir alimentos saudáveis para a população, com políticas públicas do governo que estimulem o produtor familiar;

2. A agricultura em que garantir trabalho, a fixação no meio rural. Como? Garantindo renda à agricultura que produz alimentos;

3. Proteger o ambiente;

4. Levar educação ao campo.

Isso é reforma agrária”.  


Link da matéria:

Vídeo da entrevista: 

21 de nov. de 2018

Stédile: "Por trás de Bolsonaro, há um projeto de dominação do País"

Comunicado nº 131/2018
 São Paulo, 21 de novembro de 2018
Stédile: "Por trás de Bolsonaro, há um projeto de dominação do País"


O líder do MST defende uma resistência ativa, de diálogos constante com a sociedade, e classifica de escárnio a nomeação de Sergio Moro para a Justiça


Um dos “inimigos” nominados pelo futuro presidente Jair Bolsonaro, ao lado de Guilherme Boulos, João Pedro Stedile, figura referencial do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, não se sente intimidado. “Por mais que o discurso de Bolsonaro seja raivoso, eu não acredito que a violência vai se propagar no campo”, afirma.

Na entrevista a seguir, Stedile, com a lucidez habitual, discorre sobre a derrota do PT nas eleições presidenciais, os erros da campanha e as perspectivas para os próximos quatro anos.

CartaCapital: Qual deve ser o papel do campo progressista nos próximos quatro anos?

João Pedro Stedile:  O primeiro passo é ter uma leitura comum da natureza do governo. Ele vai adotar métodos de repressão, enquanto tenta implantar os projetos de interesse do capital financeiro e internacional, cujo principal papel é recolonizar a economia brasileira e abandonar o projeto de desenvolvimento nacionalista. As forças populares precisam saber, no entanto, que, por trás do Bolsonaro, apenas porta-voz desses interesses ou muitas vezes um mero fanfarrão, há um projeto para dominar o País. Cabe a nós aplicar um programa de resistência ativa, no sentido de impedir qualquer desmonte da soberania, as privatizações e mais perdas de direitos trabalhistas. Ao mesmo tempo, é necessário explicar à sociedade o que realmente acontece. A nossa melhor defesa é a mobilização.




Continua após a publicidade:



Mini Point - A maquininha da MercadoPago!!!
Preço especial na maquininha do Mercado Pago 12x R$ 5,73.
Entrega grátis para todo o Brasil.
Compre agora https://www.goo.gl/o68LnJ




CC: Na campanha eleitoral, essas forças não foram capazes de se unir. Por que seria diferente agora?

JPS: Os partidos políticos, em geral, têm suas idiossincrasias que os levam a pensar apenas nos interesses corporativos. O problema não está aí. Independentemente do comportamento dos partidos, temos de criar um movimento de unidade nacional acima das legendas, cujo foco deve ser um programa mínimo em defesa da democracia, da soberania, dos direitos sociais e da liberdade de expressão, da pluralidade de ideias e comportamentos.

CC: O que contribuiu mais para a derrota de Fernando Haddad, o antipetismo ou o desencanto da população com a política e os políticos?

JPS: Temos feito inúmeras avaliações no MST, na Via Campesina, na Frente Brasil Popular. A nosso ver, a derrota de Haddad deu-se por uma conjugação de fatores. O primeiro foi a inviabilização da candidatura do Lula, símbolo da classe trabalhadora. Como perceberam que ele venceria no primeiro turno, trabalharam durante um ano e meio, em parceria com a Lava Jato, para tirá-lo do páreo. O segundo, nesta ordem de importância, foi a aliança maquiavélica de Bolsonaro com a direita internacional. Ele viajou para Taiwan, fez contatos com Israel e com o governo Donald Trump, tudo com apoio de Steve Bannon. Foi o mesmo modelo de campanha praticado nos EUA, que elegeu Trump.

Além disso, o uso de tecnologias externas, provavelmente com forças dos serviços de inteligência internacional, fez com que computadores disparassem milhões de mensagens pelo WhatsApp e Facebook. Esta foi a razão fundamental da mudança de resultados em menos de três dias. Basta citar a candidatura do juiz Wilson Witzel, no Rio de Janeiro.

O terceiro fator foi o desânimo da população. Bolsonaro soube captar esse descontentamento e utilizou um discurso antissistêmico. Entre 20% e 25% dos eleitores de Lula votaram no Bolsonaro. São trabalhadores, pobres, em geral jovens da periferia, que viram no deputado uma espécie de Lula com o sinal trocado. O quarto ponto é que as forças progressistas se iludiram com o tempo de televisão. E a eleição decidiu-se pelas redes sociais e no trabalho de casa em casa. Quando despertamos, não havia mais tempo. Mas mesmo assim conseguimos virar algo como 7 milhões ou 8 milhões de votos.

CC: Bolsonaro não teve militância nas ruas?

JPS: Não de forma organizada. Foi uma militância conspiratória que não aparece para a sociedade. São os policiais militares, que tiravam a farda para fazer campanha, setores das Forças Armadas, em especial do Exército, a maçonaria. Bolsonaro foi muito inteligente ao escolher o general Mourão como vice. Ele pôde construir um arco de aliança maior. Mourãocarregou parte das Forças Armadas da ativa, pois ele foi até bem pouco tempo integrante do Comando Superior do Exército, e sobretudo a maçonaria. Outra força foram os evangélicos, por meio dos pastores em púlpitos, que manipularam os fiéis com mentiras de toda ordem contra Haddad.

CC: Qual o grande equívoco cometido pelo PT e seus aliados no tempo em que ficou à frente do governo?

JPS: Os governos Lula e Dilma cometeram muitos erros. Claro, tiveram muitos acertos, mas cometeram erros em vários aspectos. Primeiro, para mim determinante: Dilma não soube interpretar as consequências da crise econômica a partir de 2012. Desde então, a economia não cresce. Em vez de elaborar um plano econômico para salvar o povo, os trabalhadores, a Dilma convidou o Joaquim Levy, que sempre foi o homem de confiança do sistema financeiro, para ministro da Fazenda. A política econômica do governo Dilma foi um desastre.

CC: E o que mais?

JPS: O segundo erro foi o PT não ter estimulado uma educação cidadã para as classes mais pobres. Não ter apostado no debate para elevar o nível de conhecimento político e cultural. O terceiro foi não ter democratizado os meios de comunicação. Imagine se distribuem todos os recursos aplicados na Rede Globo para milhares de rádios comerciais ou comunitárias e jornais do interior do Brasil? É o que chamo de democratização das fontes de informações, para justamente estimular o que acabei de falar, a educação cidadã.

CC: No Congresso tramita um projeto que classifica os movimentos sociais, notadamente o MST e MTST, como “organizações terroristas”. Como o senhor classifica essa iniciativa?

JPS: É um absurdo, sem nenhuma base legal. Para aprovarem um projeto dessa natureza, que, tenho certeza, muitos de sua base de apoio, inclusive ele, Bolsonaro, gostariam, seria preciso mudar a Constituição. Melhor, teriam de rasgar a Constituição. Ela garante e, se não me engano, trata-se de uma cláusula pétrea, que só pode ser alterada por plebiscito, o direito à liberdade de organização e expressão.

Qual o papel dos movimentos populares como o MST, o MTST e centenas de outros? Organizar a sociedade, ou seja, exercer um legítimo direito constitucional para resolver um problema concreto. Seja de moradia, seja de acesso à terra, seja de educação, ou até mesmo de salário. Existem, parece, contradições no governo. O futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, em sua primeira entrevista, descartou a possibilidade de aprovar esse projeto.

CC: Um dos pilares da campanha de Bolsonaro é a proposta de liberação das armas. O senhor teme um aumento da violência no campo?

JPS: O discurso do ódio e em favor do armamento é uma retórica para dar coesão ao grupo do candidato. Nós, do MST, e acredito que também o MTST, deixamos claro à sociedade que somos movimentos pacíficos. O MST está há 34 anos na luta, a sociedade nos conhece. Nossa forma de defesa para evitar a violência é sempre atuarmos com muita gente. As massas se protegem. Por mais que o discurso seja raivoso, não acredito que a violência vai se propagar no campo. Ainda que seja preciso redobrar os cuidados, pois a repressão virá menos do aparato estatal e mais dos grupos que elegeram o Bolsonaro.

CC: Que grupos seriam estes? A UDR?

JPS: Ou pistoleiros. Ou então algo parecido com o que tem acontecido no Sul de Minas Gerais. Um juizinho se arvora no direito de dar uma ordem de despejo para um grupo de 450 famílias que está há 20 anos em uma área em litígio. Essas famílias construíram suas vidas nesse local e certamente vão reagir. Isso pode gerar um conflito. Há forças na sociedade para reagir. Neste caso de Minas, o Ministério Público estadual, por meio de diversos procuradores, fez um abaixo-assinado entregue ao Tribunal de Justiça contra a medida.

CC: Com a escolha do juiz Sérgio Moro para o Ministério da Justiça, como o senhor avalia a situação do ex-presidente Lula?

JPS: A nomeação do Moro é, antes de tudo, um escárnio. É um tapa na cara, não do povo, mas do Poder Judiciário. Havia uma série de denúncias, inclusive de juristas renomados, de que tudo não passava de uma perseguição a Lula. Na verdade, Moro só cumpriu um script, que foi evitar a candidatura do ex-presidente. Como cumpriu a missão, agora recebe um prêmio. Em qualquer país democrático, diante de um fato como esse, os integrantes do Poder Judiciário pediriam demissão coletiva ou a demissão do ministro. Ainda espero ver o STF criar vergonha e respeitar a Constituição. Não em relação ao Lula, pois ele serviu de instrumento. Quem está preso não é mais um indivíduo, mas uma ideia, a classe trabalhadora.

CC: O senhor teme a possibilidade de um novo golpe militar, caso Bolsonaro fracasse?

JPS: Como disse várias vezes o general Eduardo Villas-Bôas, nos últimos dois anos corremos o risco de um golpe militar. Alguns estimulados pelo próprio Mourão, agora vice-presidente. O primeiro quando veio à tona os escândalos de Michel Temer. O segundo, quando Villas Bôas deu a atender que as Forças Armadas não aceitariam a candidatura de Lula. Não há, porém, mais espaços para golpes militares clássicos. Aliás, recomendo a leitura do livro Guerras Híbridas, no qual o autor demonstra que, em vez de mísseis, balas e tanques, a estratégia passou a ser a da ciberguerra, com notícias falsas, diplomacia e intervenção externa. Tal qual se deu aqui. 


Link da matéria:

29 de out. de 2018

João Pedro Stedile: "Nós temos que retomar o trabalho de base"

Comunicado nº 122/2018
 São Paulo, 29 de outubro de 2018
 

João Pedro Stedile: "Nós temos que retomar o trabalho de base"

Liderança do MST fala sobre quais são os próximos passos da esquerda após vitória de Jair Bolsonaro



"Saímos desse processo aglutinados, com capacidade e força organizada para resistir à pretensa ofensiva fascista". A afirmação é de João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sobre o resultado das eleições presidenciais.

Em entrevista à Rádio Brasil de Fato logo após a vitória de Jair Bolsonaro (PSL), Stedile ressaltou que apesar da derrota eleitoral, a vitória política é do campo progressista, que criou uma forte unidade nas últimas semanas. Na sua opinião, o governo Bolsonaro, com início em 1º de janeiro de 2018, deverá se assemelhar ao governo Pinochet, no Chile, devido a sua natureza fascista.  

"É um governo que vai usar todo o tempo a repressão, as ameaças, o amedrontamento. Vai liberar as forças reacionárias que estão presentes na sociedade. Por outro lado, ele vai tentar dar liberdade total ao capital em um programa neoliberal. Porém, essa fórmula é inviável, não dá coesão social e não resolve os problemas fundamentais da população", diz Stedile.

Confira a íntegra da entrevista.

O que dizer para as mais de 46 milhões de pessoas que votaram no candidato Fernando Haddad, apoiado pelo MST?

Ainda estamos no calor dos resultados e precisamos, acima de tudo, ter muita serenidade e entender o contexto da luta de classe e não nos considerarmos derrotados por esse resultado. Ainda que as urnas tenham dado legitimidade ao Bolsonaro, não significa que ele teve a maioria do apoio da população. Há um alto índice de abstenção, 31 milhões. O Haddad teve 45 milhões. Só ai são 76 milhões de brasileiros que não votaram no Bolsonaro.

Portanto, a sociedade brasileira está dividida. Mesmo o resultado eleitoral, do que eu pude acompanhar já nas pesquisas anteriores, ficou claro que quem está apoiando o projeto do Haddad é quem ganha menos, de dois a cinco salários mínimos. Quem tem até o ensino fundamental, e claramente, os mais ricos e abastados, votam no Bolsonaro.  

Mas também houve uma divisão eleitoral clara, geograficamente. Quando olhamos para o mapa do Brasil com os governadores eleitos, temos 12 candidatos progressistas do campo popular que vai desde o Pará até o governador Renato Casagrande (PSB) no Espírito Santo. O Nordeste e aquela parte da Amazônia são um polo de resistência geográfico que demonstram claramente que aquela população não quer seguir os rumos do projeto fascista de Bolsonaro.

Por último, como um breve balanço, como todos estão comentando, além do que o resultado eleitoral, a última semana consagrou uma vitória política da esquerda e dos movimentos populares. Tivemos inúmeras manifestações de todas as forças organizadas. Sindicatos, intelectuais, estudantes, universidades. 

Nunca antes na história do Brasil tínhamos colocado mais de 500 mil mulheres em todo o Brasil, em 360 cidades, que foram as ruas para dizer "Ele não", "Fascismo não", de maneira que eu acho que o balanço não é de uma derrota política, nós sofremos uma derrota eleitoral, mas saímos desse processo aglutinados, com capacidade e força organizada para resistir com a pretensa ofensiva fascista.  

Apesar dos bravateios de Bolsonaro, sabemos que no campo institucionais, há limitações. Ele já disse que tem a intenção de tipificar o MST e o MTST como organizações terroristas. Enxerga a possibilidade real e institucional que isso realmente aconteça?

Eu acho que o governo Bolsonaro vai se assemelhar, se fizermos um paralelo, com que foi o governo Pinochet no Chile. Não pela forma que chegou, mas pela sua natureza fascista. É um governo que vai usar todo o tempo a repressão, as ameaças, o amedrontamento. Vai liberar as forças reacionárias que estão presentes na sociedade. Por outro lado, ele vai tentar dar liberdade total ao capital em um programa neoliberal. Porém, essa fórmula é inviável, não dá coesão social e não resolve os problemas fundamentais da população.

O Brasil vive uma grave crise econômica que é a raiz de todo esse processo, desde 2012 o país não cresce. Portanto, ao não crescer, ao não produzir novas riquezas, os problemas sociais, econômicos e ambientais só vão aumentando.

Ele com seu programa ultraliberal, de apenas defender os interesses do capital, pode até ajudar os bancos, fazer com os bancos continuem tendo lucro, pode ajudar as empresas transnacionais para que tomem de assalto o resto do que nós temos aqui, porém, ao não resolver os problemas concretos da população de emprego, de renda, de direitos
trabalhistas, de previdência, de terra, de moradia, isso vai aumentando as contradições. 

Isso irá gerar um caos social que permitirá aos movimentos populares retomar a ofensiva, as mobilizações de massa. E, no fundo, além do que está na Constituição, coisa que ele não vai respeitar muito, o que vai nos proteger, não é corrermos para debaixo da tenda. O que vai nos proteger é a capacidade de aglutinar o povo, seguir fazendo lutas de massas na defesa dos direitos, na melhoria das condições de vida e essas mobilizações populares é que serão a proteção aos militantes, aos dirigentes. Não nos assustemos. As contradições que eles vão enfrentar serão muito maiores do que as possibilidades deles reprimirem impunemente.  

Há uma outra luta, que tem relação com as eleições, que desde que começou a campanha eleitoral ficou em segundo plano: a prisão ilegal e injusta do ex-presidente Lula. Qual é a perspectiva dos movimentos populares pra essa outra frente de batalha?

Como todos nós acompanhamos ao longo desse período, o presidente Lula foi sequestrado pelo capital por meio de um Poder Judiciário completamente servil a esses interesses. Ele foi preso ilegalmente. Há muitos outros, não só políticos como cidadãos, que estão respondendo em liberdade, até que se cumpra a Constituição, que só permite a prisão depois que o processo passa por todas as instâncias.

No caso do Lula, ainda falta ser julgado no STJ e depois no STF. Depois não deixaram ele concorrer quando o registro da candidatura foi feito. Outros 1400 candidatos concorreram na mesmas condições do Lula mas a ele foi proibido, e finalmente, o proibiram de falar, quando qualquer bandido de quinta categoria pode dar entrevista na Globo. Ficou famoso aquele caso do ex-goleiro do Flamengo que todo dia estava na Globo só para dar audiência. E ao Lula foi proibido se comunicar com o povo. Na verdade, eles sabiam que o Lula é a principal liderança popular que aglutinaria amplas forças do povo brasileiro, que levaria pro debate a discussão de projeto. É evidente que parte dos eleitores do Lula, que acreditam no Lula, são trabalhadores enganados por uma campanha de mentiras, que acabaram votando no Bolsonaro.

Para a esquerda e movimentos populares, temos um desafio enorme daqui pra frente de organizar comitês populares em todo Brasil, organizar um verdadeiro movimento de massas, e organizar uma verdadeira campanha internacional por sua libertação e pela designação do Prêmio Nobel da Paz no ano que vem, como é a campanha encabeçada pelo [vencedor do] Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel. 

Vamos ter uma tarefa enorme de organizar esses comitês e transformar a luta pela campanha com uma bandeira popular. Evidentemente haverá outros desafios que nós, da esquerda e movimentos populares teremos que nos debruçar no próximo período para nos aglutinarmos como vem sendo já sugerido que temos que transformar a Frente Brasil Popular, a Frente Povo Sem Medo, quem sabe nos juntarmos todos, em uma Frente Popular pela Democracia e Antifascista.

Poderia ser um instrumento mais amplo ainda do que a própria Frente Brasil Popular. Temos muita luta pela frente. A luta de classes é assim. É muito parecida com um jogo de futebol em um longo campeonato. Tem domingo que se perde uma partida, tem outro em que se ganha. Mas o fundamental é ir acumulando força e organizando nosso povo. É isso que muda correlação de forças. 

Como a esquerda sai dessa batalha? Os partidos, movimentos, o próprio Fernando Haddad?

Eu me envolvi pessoalmente, o nosso movimento e a Frente Brasil Popular, e se notou claramente, nas últimas duas semanas, um novo alento, uma nova interpretação para o que está acontecendo no Brasil. Muita gente se mobilizou independente de partidos e movimentos, ou seja, há energias na sociedade e conseguiremos resistir ao fascismo. 

Agora, não podemos cair no reducionismo da vida partidária e ficar nas especulações do que acontecerá com fulano ou beltrano. As pessoas pouco importam nesse processo. A luta de classes, é de classes, e portanto, é a dinâmica da luta de classes que altera a correlação de forças, que vai resolver os problemas do povo. No meio dessas lutas de classe, vão surgindo novos líderes e novas referências. Não podemos nos apegar a essas leituras.

"O Haddad já se cacifa para 2022", "O Ciro se cacifa". O Ciro Gomes saiu muito bem no primeiro turno, com moral, e depois jogou essa moral na lata do lixo ao se abster da disputa política do segundo turno. A vida útil do Ciro durou três semanas. É assim a lógica da luta de classes.

Acho que a esquerda e os movimentos populares que tem causas bem específicas, de mulheres, moradia, terra e movimento sindical, temos que nos debruçar com serenidade, fazer as avaliações críticas e autocríticas e retomar a nossa agenda história da classe trabalhadora, para enfrentar os desafios da vida e da história.

Ficou claro durante essa campanha: nós temos que retomar o trabalho de base, que até o  Mano Brown puxou a orelha e ele estava correto. Se nós tivéssemos tido a paciência de, ao longo desses seis meses, ter ido de casa em casa, nos bairros da periferia, onde vive o povo pobre, acredito que teríamos outro resultado eleitoral. O povo entende, mas ninguém vai lá falar com ele.

Temos que ter claro que o que altera a correlação de forças, não é discurso, não é mensagem no Whatsapp. O que altera a correlação de forças e resolve os problemas concretos da população é se nós organizarmos a classe trabalhadora e a população para fazer lutas de massa e resolver seus problemas.  

Se falta trabalho, temos que fazer a luta contra o desemprego. Se o gás está muito alto, temos que fazer a luta para abaixar o preço do gás. Isso exige luta de massa. Da mesma forma, a esquerda abandonou a formação política. As pessoas foram iludidas pelas mentiras da campanha do Bolsonaro no Whatsapp, por que? Porque não tem discernimento político para saber o que é mentira e o que fazia parte do jogo. Isso só se resolve com formação política e ideológica, quando a pessoa tem discernimento, conhecimento, para ela julgar por si mesmo e não esperar orientação de ninguém.

Assim como temos que potencializar ainda mais esse belo trabalho que vocês fazem no Brasil de Fato, com rádio, jornal, tabloide, internet, que é potencializar nossos meios de comunicação populares. De fato a televisou parou de pesar na formação de opinião das pessoas. Então, temos que construir os nossos meios de comunicação. Agora é o tempo ideal.

Finalmente, temos que fazer um novo debate no país, sobre um novo projeto soberano para uma sociedade igualitária e justa. Como essa campanha foi baseada na mentira e na luta contra mentira, nós não discutimos programa, não discutimos um projeto estrutural pro país. Agora temos que recuperar esse debate e nos próximos meses e anos, reconstruir uma unidade popular entorno de um projeto. Um programa de soluções para o povo, porque do outro lado, do governo, não virá.




Link da matéria:

1 de ago. de 2018

ENTREVISTA JOÃO PEDRO STEDILE AO JORNAL DO BRASIL

ENTREVISTA JOÃO PEDRO STEDILE AO JORNAL DO BRASIL  

?Defendemos a Constituinte?


BERNARDO DE LA PEÑA
blp@jb.com.br

Líder nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais SemTerra (MST), o economista João Pedro Stédile está na linha de frente pela libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele prevê que, se impedirem a candidatura de Lula, a crise política vai se tornar ainda mais aguda. “Ninguém sabe no que vai dar”, adverte. Nesse quadro, Stédile aponta uma saída para além da eleição: “Nós, dos movimentos populares,  somos defensores de uma Assembleia Constituinte”.

O senhor acha que a candidatura do ex-presidente Lula ainda é viável?

A candidatura do Lula não é viável, é necessária. O Lula se transformou no simbolo da classe trabalhadora, na única porta de saída que temos para enfrentar a grave crise econômica, social, ambiental e política que o Brasil está vivendo. O Lula é o único que galvaniza essas energias populares para, com a vitória dele, provocar um clima de debate de um novo projeto para o país, para solucionar os graves problemas que temos como nação, como povo e como classe trabalhadora. Nenhum outro conseguiria fazer isso no curto prazo. Por isso que se a burguesia, através de seus capitães do mato, no que hoje se transformou o Judiciário, impedir a sua candidatura, estaria cometendo um crime de “lesa pátria”, porque vão agudizar ainda mais essa crise pelos próximos quatro anos, e ninguém sabe no que vai dar.  

Outros candidatos de esquerda, como Ciro Gomes, ou Manuela D?Ávila, ou Guilherme Boulos, não poderiam cumprir esse papel?

Temos diversos candidatos, como estes citados, que têm personalidade e índole de esquerda, são nacionalistas, mas não estamos julgando as pessoas, nem seus propósitos. Temos de considerar quem galvaniza as energias populares, e nenhum deles, por sua  história e pelo comportamento das massas, tem essa síntese. Então o Lula não é mais do PT, não é da esquerda. O Lula se transformou numa simbiose com a classe trabalhadora, com os mais pobres do Brasil.

Mas jogar toda essa responsabilidade em cima de um nome, de uma pessoa, não significa uma certa contradição com esse trabalho de organização das massas?

Não, porque essa simbologia política  faz parte da psicologia social, em quem o povo acredita. Já no campo da política, da organização do povo, aí de fato não é suficiente a eleição do Lula. Nós, como setores organizados da classe, seríamos contraditórios se só colocássemos nossas energias nas eleições. A eleição é para abrir a porta e as  nossas energias têm de ser para organizar o povo. É por isso que no bojo da Frente Brasil Popular, que reúne 88 movimentos e partidos, estamos multiplicando, em todo o país, uma metodologia de trabalho de base de organização do povo, que estamos chamando de Assembleia do povo, uma forma  de ir lá e falar com o povo. Hoje, mais de 600 cidades já se engajaram nesse processo, que é ir de casa em  casa. Aprendemos com os evangélicos. A assembleia se resume numa pergunta: “quem é responsável pela crise?” 

Lula não seria responsável por uma parcela dessa crise? O senhor mesmo disse que ele compôs com a burguesia e as oligarquias?

Sabemos que foi um governo de conciliação, mas tenho de reconhecer que aquele momento foi aquém das nossas realizações.  Precisamos de uma reforma política de fundo. Nós, dos movimentos populares, somos defensores da Assembleia Constituinte.

O que Lula pensa a respeito? 

O Lula até agora era relutante. Dizia que se convocar a Assembleia Constituinte ganha a direita. Mas nós contra argumentávamos: a simples convocação de uma Assembleia Constituinte, dentro de alguns  parâmetros, sem financiamento de campanhas, garantindo candidaturas democráticas. Só isso vai criar uma ebulição política.  Mas na última visita que fiz a Lula, na quinta-feira passada, ouvi pela primeira vez dele: “Companheiro Stédile, a política está uma podridão. Estou convencido. Nós, ganhando o governo, temos que convocar uma Assembleia Constituinte no primeiro ano”. Falei  para ele: Lula, isso é sério, hein? Posso falar publicamente? E ele: “Tudo que você ouviu de mim pode  tornar público”. Esse é um capítulo urgente.

Como o senhor avalia a experiência do orçamento participativo?

O orçamento participativo envolvia milhares de pessoas no debate, foi importante como experiência de cidadania, mas só influia sobre 3% do orçamento, porque 97% já  estavam comprometidos com os bancos ou com a folha de pagamentos. Foi uma grande experiência de cidadania, mas precisamos fazer uma reforma política de fundo.

Qual o conceito atual de burguesia? São os grandes capitalistas?

Isso mesmo, os grandes capitalistas. Os bancos andam para quem vai ser eleito. Quem manda hoje no mundo são os bancos. E eles operam por fora dos Estados. Então, haverá nas próximas décadas a necessidade de ser construído outro Estado que  não sabemos ainda como vai ser. 

E isso acontecerá pelo voto?

Sim, não necessariamente com eleições de quatro em quatro anos, mas através da mobilização popular. Através da participação ativa dos movimentos sociais. A democracia não pode se resumir ao voto.

Como anda o MST?

Anda bem. O que está mal é a reforma agrária, que está parada no mínimo há cinco anos. Já no primeiro mandato da Dilma o governo não fez nada. Nos dois anos de Dilma e mais dois de agora não houve mais nenhuma desapropriação. Fecharam o MDA e o Incra virou balcão de negócios do partido do Paulinho da Força. 

Vocês foram acusados de destruir  uma fazenda. É verdade? 

Correntina, na Bahia, nova fronteira  agrícola da soja, tem uma fazenda de um grupo japonês de dez mil hectares. Passaram a plantar soja irrigada. Pegaram água do córrego, faltou água na cidade de 30 mil  habitantes, um mês, outro mês. Um geólogo revelou que a culpa era da empresa. Na missa, o padre disse que a culpa era do japonês. A cidade inteira foi lá e arrebentaram o sistema de irrigação. Nem existe MST na região. Aí o Francisco Graziano Neto, ex--presidente do Incra na época do Fernando Henrique e hoje secretário particular dele, botou no blog dele, com uma foto fantasiosa de nossa bandeira, e disse que aquilo lá era crime do MST. Foi a versão que ficou. 

Quem produz pode temer o MST?

Na época da Constituinte, propusemos um acordo. Se quisessem poderiam por na   lei: até 1500 hectares, intocável, não nos interessa, mas acima de 1500 hectares, toda área que produzir abaixo da média da região, o governo tem de desapropriar.

7 de abr. de 2018

João Pedro Stedile: "Hoje foi um dia de resistência histórica"

Stedile analisa as perspectivas para a resistência popular democrática - Créditos: Rafael Stedile
João Pedro Stedile / Foto: Rafael Stedile

João Pedro Stedile: "Hoje foi um dia de resistência histórica"

O dirigente nacional do MST faz um balanço da mobilização popular contra a prisão do ex-presidente Lula nesta sexta (6/4). Saiba mais.

23 de abr. de 2015

Stedile: Que o espírito de Tiradentes nos ilumine a irmos às ruas por justiça social

medalha.jpeg
Merecidamente, João Pedro Stedile recebe medalha da Inconfidência
Confira artigo de João Pedro Stedile sobre o significado da Medalha da Inconfidência, conferido a ele no último dia 21. Leia mais