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23 de mar. de 2019

MST - Comunicado nº 24/2019 - SÓ A GREVE OPERÁRIA JÁ NÃO AGLUTINA AS MASSAS - Entrevista de João Pedro Stedile ao Tutameia

Comunicado nº 24/2019
 São Paulo, 22 de março de 2019
 
SÓ A GREVE OPERÁRIA JÁ NÃO AGLUTINA AS MASSAS



A viagem de Jair Bolsonaro aos EUA deixou clara a subordinação descarada aos interesses do capital norte-americano. Essa subserviência do governo é uma jogada burra da burguesia brasileira. Bolsonaro é um presidente despreparado e foi eleito por uma fraude; ele não tem base social real da maioria da população brasileira. As contradições entre os grupos que estão no poder vão inviabilizar o governo.

A análise é de João Pedro Stedile ao TUTAMÉIA. Dirigente histórico do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), ele afirma: “Lutar pela liberdade do Lula é lutar para se recompor a democracia no Brasil. Precisamos mostrar para a população que o Lula só está preso porque eles precisam calá-lo. Ele pode ser o líder da maioria do povo para fazermos um grande mutirão nacional para nos contrapormos a esse governo”.

Para ele, o atual governo “não tem projeto de desenvolvimento nacional e não tem interesse em resolver os problemas do povo. É fundamental termos um outro projeto e um outro debate na sociedade. Enquanto o Lula estiver preso vai ser muito difícil fazermos esse debate na sociedade e recuperarmos espaços de democracia. Temos que nos livrar dessa mentira de que o Lula é ladrão, provar para a população que o Lula é um líder popular e seu único compromisso é com as mudanças a favor do povo”.

E segue:

“Lula tem o papel fundamental de unir o povo. O afastamento do Lula gera também disputas internas no partido, oportunismos de todo o tipo. O Lula solto recomporia a unidade dentro do PT e entre os partidos de esquerda”.

PEITAR O GOVERNO E O CAPITALISMO

Na visão de Stedile, não há outros líderes da estatura de Lula porque “quem produz os líderes não são os partidos, mas o movimento de massa. E houve um refluxo do movimento de massas nos últimos 20 anos. A própria esquerda se confiou nos espaços institucionais e deixou de estimular mobilização popular”, diz.

Sua avaliação é a de que o movimento popular segue em refluxo. Pode ser que a ameaça de fim da aposentadoria pública e/ou a crise econômica levem à “eclosão de uma rebeldia no Brasil” –o que depende também da capacidade de organização. Stedile lembra que, no passado, o “reascenso era baseado no operariado industrial, no sindicato e no partido. Era quando o capitalismo industrial era o hegemônico. Agora é o capitalismo financeiro”.

Assim, declara: “A esquerda terá que ser mais criativa e desenvolver novas formas de organização. Só a greve operária já não aglutina mais as massas. A greve por si só não tem se revelado uma forma de se fazer o reascenso do movimento de massas. A esquerda precisa sentar , ter humildade e ser mais criativa e ver outras formas: pela cultura, por outras manifestações de massas que possam ser peitar o governo, peitar o capitalismo”.

DERROTAR O SISTEMA FINANCEIRO

“Nenhum intelectual sério hoje defende o capitalismo. O capitalismo já é do passado.O capitalismo não resolve mais o problema da humanidade. No passado, ele foi progressista. Depois da Segunda Guerra Mundial, as políticas social-democratas capitalistas resolviam os problemas das massas. Hoje, o capitalismo já está no seu final. O capitalismo já não é solução. Ninguém pode defender o lucro como solução para os problemas da humanidade. O capitalismo já não é solução para a humanidade. O grande debate ideológico que se abrirá é sobre o que vamos construir no seu lugar”, diz.

É por essa razão, segundo ele, que voltam a ter presença as ideias do socialismo. Ele acha mais prudente falar em sociedade igualitária, socialização dos meios de produção, “que todos possam ter renda, trabalho, escola, casa, emprego, saúde, alimento saudável”.

Stedile defende que é preciso derrotar o sistema financeiro –“o inimigo principal de todos nós e a porta para derrotarmos o capitalismo e entrarmos para um novo modo de produção. E acrescenta: “Os nossos inimigos principais são os bancos e as corporações transnacionais.Sobre essa plataforma, nós conseguiremos ampla base social em todo o mundo”.

VENEZUELA, LULA

Na entrevista ao TUTAMÉIA, Stedile, 65, tratou de Venezuela, da Campanha por Lula Livre, da destruição promovida pelo governo Bolsonaro e de novos paradigmas para o desenvolvimento do país.

“O que está em jogo na Venezuela é com quem vai ficar com a renda petroleira. Se com as empresas petroleiras americanas ou com o povo da Venezuela”, resume.

“Trump está cada vez mais desmoralizado. Ele quer o petróleo [venezuelano] e precisa de uma causa externa. Ele vai perder as eleições. A derrota de Trump abrirá uma nova situação na geopolítica internacional”, afirma.

Stedile convocou manifestações por Lula Livre de 7 a 10 de abril. “Se alguém tinha alguma dúvida de que o Moro trabalha para os americanos, agora ele deixou atestado. Moro foi na CIA e ao FBI prestar conta para os seus verdadeiros patrões. Temos que protestar contra o Moro. O Moro não tem moral”.

EMBRAER É MAIS IMPORTANTE DO QUE A PECUÁRIA

Na avaliação de Stedile, “o Brasil precisa de um novo modelo agrícola que não esteja fundado no lucro e na produção de commodities para o exterior. O agronegócio como modelo de economia nacional já está falido. É uma burrice utilizar um território tão amplo como o brasileiro (300 milhões de hectares agriculturáveis), com soja, cana, milho, pecuária. Nenhuma economia do mundo pode se sustentar em dois ou três produtos agrícolas para exportação. E competimos com os EUA. Comprar briga com a China, que é nosso parceiro, é uma burrice. Essas contradições da geopolítica internacional vão aflorar mais rápida ao que imaginávamos”.

Para um projeto de verdadeiro desenvolvimento nacional, diz, “precisamos usar esses 300 milhões de hectares de forma mais racional. Temos que produzir alimentos saudáveis para toda a população, estimulando a pluricultura, não a monocultura. Todas as exportações de carne bovina no brasil representam 5 bilhões de dólares. A Embraer, sozinha, com os seus 100 hectares em São José dos Campos e doze mil operários e alta tecnologia exporta por ano 6 bilhões de dólares. A Embraer é mais importante para a economia brasileira do que a pecuária extensiva”.

Como exemplo dos descaminhos do modelo, o dirigente do MST fala da evolução econômica de Ribeirão Preto, antes baseada em várias culturas agrícolas. Hoje, “Ribeirão Preto só tem cana. A população carcerária de Ribeirão Preto é de 2.700 presos A população rural é de 2.400. Isso é modelo de sociedade? Em que a população carcerária é maior do que a população que se dedica à agricultura? Claro que não”.

Stedile discorre também sobre o impacto ambiental do uso de venenos nas monoculturas. E afirma:

“O Brasil precisa de um novo modelo agrícola que não esteja fundado no lucro e na produção de commodities para o exterior. Precisamos de outros paradigmas:

1. Produzir alimentos saudáveis para a população, com políticas públicas do governo que estimulem o produtor familiar;

2. A agricultura em que garantir trabalho, a fixação no meio rural. Como? Garantindo renda à agricultura que produz alimentos;

3. Proteger o ambiente;

4. Levar educação ao campo.

Isso é reforma agrária”.  


Link da matéria:

Vídeo da entrevista: 

29 de jan. de 2019

MST celebra 35 anos e reafirma luta por reforma agrária e alimentos saudáveis

Comunicado nº 07/2019
 São Paulo, 28 de janeiro de 2019
 
MST celebra 35 anos e reafirma luta por reforma agrária e alimentos saudáveis

Ato político na Escola Nacional Florestan Fernandes teve a participação de 400 militantes. “Não vamos abrir mão de continuar em luta”, disse João Pedro Stédile


São Paulo – O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) celebrou neste sábado (26) seus 35 anos de existência em encontro com 400 militantes na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema (SP). “Não vamos abrir mão de continuar em luta.

Ocupando terra, dialogando com a sociedade, defendendo os direitos da classe trabalhadora e produzindo alimentos saudáveis”, afirmou o representante da direção nacional do MST, João Pedro Stédile, que ressaltou a disposição de toda a militância do movimento de seguir em resistência e em luta permanente.

O ato político contou com a presença de parlamentares, representantes de movimentos populares, professores universitários e amigos e amigas da organização, e reafirmou em toda sua mística a disposição dos Sem Terra em todo o país de seguir na construção da resistência, que possa avançar na construção do projeto de Reforma Agrária Popular e de um novo modelo de sociedade.

Moisés Borges, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) reforçou o legado do MST na luta no país. “São 35 anos de história, 35 anos de luta, de organização e de exemplo para os movimentos populares, nessa capacidade incrível de se reinventar. Esse exemplo é o que faz com que a gente acredite que esse cenário político que vivemos hoje, será derrotado por nós”, disse.

Participaram ainda do ato político Rui Falcão, do Partido dos Trabalhadores (PT), Walter Sorrentino, do PCdoB, Vagner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), representação do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Levante Popular da Juventude, Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), além de parlamentares do PT e PCdoB.

Crianças, jovens, homens, mulheres, sujeitos da diversidade sexual, negros e negras, referendando a identidade Sem Terra, de punhos erguidos, bandeiras tremulando no alto e ferramentas de trabalho em mãos, fizeram ecoar juntos e juntas a mensagem da resistência daqueles e daquelas que amam a revolução.

Representando o PT, Rui Falcão destacou o papel do MST na organização e na luta da classe trabalhadora no país.

“O MST surge numa década de grandes mudanças, década em que em conjunto nós conseguimos derrotar a ditadura e agora, 35 anos depois, nos deparamos com outro tipo de ditadura. Uma ditadura que não coloca tanques e fuzis na rua, mas se associa com a mídia, com o judiciário e com o grande capital para retirar direitos do povo”, disse. “O MST foi e segue sendo importante nessa trajetória e temos toda a disposição de lutarmos juntos nas ruas, no parlamento, em unidade, para que a gente possa trazer de volta ao Brasil a democracia e os direitos”, concluiu.

O ato marcou a entrega da Menção Honrosa da Assembleia Legislativa do Paraná em homenagem aos 35 anos do MST, entregue pelo Deputado Estadual Professor Lemos (PT) ao conjunto do Movimento, destacando o papel do MST na luta pela terra no Paraná e em todo o país.

Durante o ato, o MST lançou a “Carta ao Povo Brasileiro”, abordando a posição do Movimento na atual conjuntura política brasileira e internacional. “Lutaremos pela democracia, pela justiça, pela igualdade, pela defesa dos bens da natureza, pela democratização da terra e pela produção de alimentos saudáveis para alimentar o povo brasileiro”, destacou trecho da carta.

A carta reforça ainda a solidariedade do Movimento ao Povo Venezuelano, na luta pela soberania dos povos em todo o mundo.

Confira a Carta ao Povo Brasileiro na íntegra:

O Movimento Sem Terra celebra seus 35 anos de luta pela reforma agrária e por justiça social. Nascemos no final da ditadura civil-militar, junto com milhares de lutadores e lutadoras que defenderam a democracia e desafiaram o autoritarismo. Mais uma vez, reafirmamos nosso compromisso de lutar pela democratização da terra, pela produção de alimentos saudáveis, pela soberania popular e por uma sociedade emancipada.

Diante da crise estrutural do capital, com consequências graves e destrutivas para a natureza e a humanidade, nossas tarefas políticas se tornam ainda mais urgentes e necessárias. As saídas apresentadas pelo capital financeiro, nada tem a ver com as necessidades humanas, pois resultam em aumento da superexploração dos trabalhadores e trabalhadoras, através da precarização do trabalho, desmonte das políticas públicas, agressiva retirada de direitos e expropriações diversas, elevando de forma brutal, os níveis de desigualdade social. Para executá-las, o capital requer um Estado cada vez mais autoritário, voltado à repressão, violentando e perseguindo os mais pobres, promovendo um cruel genocídio da juventude negra.

Foi desta forma que os meios de comunicação, o poder judiciário, os bancos, os militares e o agronegócio, levaram ao poder, neofascista e ultraliberal, um capitão reformado que atua pelas formas mais baixas e vulgares da política, para manter os privilégios dos que historicamente saquearam o país e atacar diretamente os direitos da classe trabalhadora, através de ajustes fiscais, privatizações e subordinação da nossa economia ao capital internacional, principalmente dos EUA. 

A subordinação das questões indígenas, fundiárias e ambientais aos interesses da bancada ruralista e do agrotóxico no Ministério da Agricultura; o desmonte da previdência social; a ameaça da entrega das empresas e bancos nacionais, como Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal; a liberação da posse de armas são algumas das políticas mortíferas adotadas por esse (des)governo, que colocam em risco a nossa biodiversidade e acirram os conflitos no campo atingindo frontalmente os indígenas, quilombolas, ribeirinhos, camponeses, assentados e acampados da Reforma Agrária e evidencia a característica  antinacional e antipopular do atual governo.  

É preciso ocupar as ruas e as praças denunciando a voracidade dessas políticas que aprofundam a expropriação e exploração capitalista. 

Assim, nos comprometemos em lutar e defender todos e todas trabalhadores e trabalhadoras que tenham sua existência ameaçada. Seguiremos defendendo a soberania dos e povos e lutando contra qualquer tipo de ingerência política e/ou intervencionismo militar em qualquer país. Declaramos total solidariedades ao povo Venezuelano!

Nos solidarizamos com as famílias atingidas pela barragem de Brumadinho, vítimas de mais uma ação criminosa e reincidente da Vale, uma assassina protegida pelo poder judiciário.
Nos somaremos a mobilização das mulheres trabalhadoras no 8 de março, seremos zeladores do legado e a memória de Marielle Franco e de tantos outros companheiros e companheiras que tombaram, exigindo a punição dos seus assassinos e mandantes. Defenderemos a liberdade do companheiro Lula, cuja prisão política foi utilizada para que esse projeto fosse vitorioso nas eleições.

Nos comprometemos em fortalecer a Frente Brasil Popular e todas as iniciativas de luta da classe trabalhadora que confrontem a exploração, a subordinação e a opressão, nos somando na luta cotidiana das mulheres, da população urbana e camponesa, dos negros e negras, dos povos indígenas e dos sujeitos LGBT. 

Lutaremos pela democracia, pela justiça, pela igualdade, pela defesa dos bens da natureza, pela democratização da terra e pela produção de alimentos saudáveis para alimentar o povo brasileiro. 

Lutar, construir Reforma Agrária Popular!

Coordenação Nacional do MST



Link da matéria: 

16 de jul. de 2018

Vejam as ideias de um fascista: ex-capitão do exercito, sr Bolsonaro, que quer ser presidente do Brasil. E resposta do jornalista Leonardo Sakamoto sobre as declarações de Jair Bolsonaro.


Vejam as ideias de um fascista:  ex-capitão do exercito, sr Bolsonaro, que quer ser presidente do Brasil. E resposta do jornalista Leonardo Sakamoto sobre as declarações de Jair Bolsonaro.


Bolsonaro defende PM por massacre em Carajás

Pagina da Uol 

Em visita a Eldorado do Carajás, no sudoeste do Pará, o pré-candidato ao Planalto pelo PSL, Jair Bolsonaro, defendeu ontem os policiais presos pela morte de 19 trabalhadores rurais sem-terra ocorrida em abril de 1996 na região.

Bolsonaro foi até a Curva do S, um trecho da BR-155, em Eldorado do Carajás, onde os semterra foram mortos – dez com tiros à queima-roupa – por policiais militares comandados pelo coronel Mário Pantoja, condenado a 228 anos de prisão.

“Quem tinha que estar preso era o pessoal do MST (Movimento dos Sem Terra), gente canalha e vagabunda. Os policiais reagiram para não morrer”, disse Bolsonaro, em frente a troncos de castanheiras queimados que marcam o local do massacre. Um grupo de policiais que acompanhava o discurso aplaudiu.

A passagem de Bolsonaro pelo Pará foi marcada pela defesa de temas de interesses dos produtores. Na noite anterior, em jantar com um grupo de fazendeiros e policiais, em Marabá, Bolsonaro disse que, se eleito presidente, vai tirar o Estado do “cangote” dos ruralistas, “segurar” as multas ambientais e aumentar a repressão a movimentos do campo.

“Não vai ter um canalha de fiscal metendo a caneta em vocês”, disse o pré-candidato.

“Direitos humanos é a pipoca, pô.”

O presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antonio Nabhan Garcia, discursou antes do presidenciável. “Bolsonaro, aqui o recado da classe produtora é direto: procuramos um presidente que não nos atrapalhe e não nos persiga”, disse.

“Quando o senhor se tornar presidente, vê o que fará com essa gente da Funai, do Ibama, do Ministério Público, que não respeita a propriedade privada”, afirmou.

Ainda ontem, Bolsonaro foi para a cidade vizinha de Parauapebas. Em frente a uma portaria do Complexo de Carajás, uma das maiores regiões mineradores do País, ele discursou ao lado de uma família de índios da região.

“Os índios e os afros são brasileiros como nós”, disse. “Eles não querem ser latifundiários, mas cidadãos. Se quiserem arrendar suas terras, vão arrendar. Se quiserem vender, vão poder vender.”

Bolsonaro promete liberar garimpo em terras quilombolas.

Link da matéria:


Bolsonaro promete liberar garimpo em terras quilombolas

Pré-candidato do PSL afirmou que irá levar 'progresso' para indígenas


Em evento em Parauapebas, no interior do Pará, o presidenciável  Jair Bolsonaro, do PSL, prometeu na manhã desta sexta-feira que, se for eleito, vai levar “progresso” a aldeias  indígenas  e permitir que quilombolas abram garimpo  em terras demarcadas ou até mesmo possam vendê-las.

No evento, que contou com centenas de simpatizantes, Bolsonaro declarou que os indígenas têm o desejo de se “integrar à sociedade”, diz a publicação.

“No meu governo, o progresso vai entrar nas terras indígenas, como vai entrar nos quilombolas também. O quilombola que quiser garimpar na sua terra, vai garimpar. Se quiser vender sua terra, vai vender também. O que a comunidade indígena quer é se integrar cada vez mais à nossa sociedade”, afirmou, diz O Globo.

Veja matéria completa: 



Bolsonaro defende os assassinos dos 19 executados em Eldorado dos Carajás

Por:Leonardo Sakamoto


O deputado federal e pré-candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro, defendeu os policiais que participaram do Massacre de Eldorado dos Carajás no exato local dos 19 assassinatos nesta sexta (13). ''Quem tinha que estar preso era o pessoal do MST, gente canalha e vagabunda. Os policiais reagiram para não morrer'', disse Bolsonaro no registro do repórter Leonencio Nossa, do jornal O Estado de S.Paulo.

O Brasil desmemoriado talvez não se lembre do que foi o massacre, o horror sentido país afora e a vergonha internacional que isso nos causou. Para quem se lembra, a imagem de um político atacando os sem-terra mortos em seu memorial como parte de uma estratégia de campanha para ganhar espaço na mídia, buscar votos de certos fazendeiros e policiais e receber chuvas de likes de gente desinformada soa como ignomínia.  Visitei o memorial pelos mortos diversas vezes. Deveria ser um local de reflexão sobre nossa ignorância, não um espaço para que ela aflorasse.

Dito isso, não vale perder tempo criticando marketing eleitoral de mau gosto. Mas sim explicar o que foi Eldorado dos Carajás e suas consequências à população para a qual Eldorado dos Carajás não significa nada. Pois a certeza da impunidade deixada pelo massacre segue produzindo filhos em toda a Amazônia. Por exemplo, em maio do ano passado, não muito longe dali, dez trabalhadores rurais sem-terra foram executados pela polícia no que ficou conhecido como o Massacre de Pau d'Arco.

O que foi o massacre?
O Massacre de Eldorado dos Carajás foi o palco da execução de  19 sem-terra e deixou mais de 60 feridos em uma ação violenta da Polícia Militar para desbloquear a rodovia PA-150, no Sudeste do Pará, no dia 17 de abril de 1996. Um mês antes, a fazenda Macaxeira, em Curionópolis (PA), havia sido ocupada por mais de 1,2 mil famílias sem-terra. No mês seguinte, um grupo com mais de mil pessoas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) começa uma marcha para Belém a fim de pedir a desapropriação da área e sua destinação à reforma agrária, obstruindo a rodovia. Duas pessoas foram condenadas por reprimir com morte a manifestação: o coronel Mario Colares Pantoja (a 228 anos) e o major José Maria Pereira Oliveira (a 154 anos), que estavam à frente dos policiais.

O massacre se fez apenas com duas pessoas? 
Os responsáveis políticos na época, o então governador Almir Gabriel (que ordenou a desobstrução da rodovia) e o secretário de Segurança Pública, Paulo Câmara (que autorizou o uso da força policial), nunca foram processados. Outros 142 policiais militares que participaram da matança foram absolvidos. Isso sem contar que as denúncias de fazendeiros locais que teriam dado apoio para a ação policial ficaram por isso mesmo.

O massacre foi algo novo no Pará?
Se fossemos contar todos os casos anteriores de sindicalistas, trabalhadores rurais, camponeses, indígenas cujos carrascos nunca foram punidos no Pará, teríamos o maior post de todos os tempos. Por exemplo, na década de 80 e 90, os fazendeiros resolveram acabar com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria, no Sul do Pará, e assassinaram uma série de lideranças. Foram a julgamentos, houve condenações, fuga de pistoleiros, mandantes que viveram em paz até a sua morte natural. A certeza da impunidade pavimenta a tortura e a violência contra trabalhadores e populações tradicionais no Pará. Periodicamente, lideranças sociais são agredidas e mortas na Amazônia. Alguns casos são mais conhecidos e ganham mídia nacional e internacional – como as mortes da irmã Dorothy Stang (em fevereiro de 2005, em Anapu) e das lideranças extrativistas Maria e Zé Cláudio (em maio de 2011, em Nova Ipixuna). Mas a esmagadora maioria passa como anônima e é velada apenas por seus companheiros. Mudanças positivas têm acontecido na Justiça no Pará graças à sociedade civil, à imprensa e a promotores, procuradores e juízes que têm a coragem de fazer o seu trabalho, mesmo com o risco de uma bala atravessar o seu caminho. Mas tudo isso é muito pouco diante do notório fracasso em garantir a dignidade daqueles que lutam com melhores condições de vida até o presente momento.

Um massacre gera filhos?
Muitos. Por exemplo, uma ação conjunta das Polícias Militar e Civil do Pará, em maio do ano passado, levou à morte de nove homens e uma mulher no município de Pau d'Arco. Segundo o governo do Estado, os policiais estariam cumprindo mandados de prisão de acusados de assassinar um segurança de uma fazenda, mas a Comissão Pastoral da Terra afirma que foi uma execução em uma ação de despejo. Os policiais tem sido soltos e presos em uma gangorra judicial desde então. Pau d'Arco tem o mesmo cheiro e gosto que Eldorado dos Carajás. Mas repercutiu bem menos dentro e fora do país. Não por conta dos nove mortos a menos, mas pelo  massacre de 1996, que não recebeu devida Justiça, ter aberto uma porteira para outras ocorrências. Como as nove pessoas que foram assassinadas em uma área próxima a um assentamento em Colniza (MT), município que faz divisa com os Estados do Amazonas e Rondônia, em abril de 2017. Dois foram mortos a facadas e sete com tiros de calibre 12 por pessoas encapuzadas, de acordo com sobreviventes. Pegue diferentes matérias sobre os assassinatos no campo. Verá que é só trocar o nome dos mortos, do município (às vezes, nem isso) e onde foi a emboscada para serem a mesma matéria. As mesmas desculpas do governo, os mesmos planos de ação parecidos, as mesmas reclamações da sociedade civil, os mesmos grupos sendo criados para debater e encontrar soluções. Pode-se prender um ou dois. Mas as condições que fizeram Eldorado dos Carajás estão aí produzindo vítimas. De novo. E de novo. E de novo.


O massacre foi algo isolado?
As mortes no campo são resultado de um modelo de desenvolvimento concentrador e excludente, que fomenta a grilagem de terras e a especulação fundiária. E está pouco se importando com o respeito às leis ambientais, por que acredita que o país tem que crescer rápido, passando por cima do que for. Esse modelo explora mão de obra, chegando a usar trabalho escravo a fim de facilitar a concorrência (desleal) e o dumping social em cadeias produtivas cada vez mais globalizadas (o Pará é o Estado com maior incidência de trabalhado escravo: dos 52.766 libertados, entre 1995 e 2017, 13.211 (25%) estavam lá, a maior parte na pecuária bovina). Tudo com a nossa anuência, uma vez que consumimos os produtos de lá alegres e felizes com nossa ignorância, elogiando algumas marcas e empresas que – ao contrário de nós – não estão imersas em ignorância.

O massacre feito por policiais é apenas culpa do poder público?
A pergunta é: quem comanda o quê? Há uma relação carnal que se estabelece entre o público e o privado na região amazônica. O detentor da terra exerce o poder político, através de influência econômica e da coerção física. É frequente, por exemplo, encontrar policiais que fazem bicos como seguranças de fazendas por conta da baixa remuneração de sua atividade. Em outros casos, as tropas públicas ficam diretamente a serviço de particulares. Sabe qual a chance de trabalhadores rurais que solicitam a destinação de terras griladas para a reforma agrária ou de comunidades tradicionais que exijam a devolução de terras roubadas terem o mesmo sucesso que grandes proprietários que pedirem a desocupação de terras? Anos atrás, grandes proprietários rurais e suas entidades patronais chegaram a demandar intervenção federal no Pará uma vez que o poder público local não estava sendo célere – em sua opinião, claro – para garantir reintegrações de posse de terras (muitas das quais, com sérios indícios de grilagem). Se fossem trabalhadores pedindo isso, o ato seria encarado como um levante e reprimido à bala.



A quem interessa que massacres no campo continuem acontecendo?
Não é de hoje que as regiões de expansão agropecuária e extrativista da Amazônia e do Cerrado vivem uma situação  de conflito deflagrado. O Estado brasileiro tem sido incompetente para prevenir e solucionar crimes contra a vida no campo e há uma situação clara de conflito deflagrado. Mortes no campo não são de hoje, mas há muitos produtores rurais e extrativistas gananciosos que estão com sangue nos olhos. Sentem-se fortalecidos por verem no atual governo federal um aliado para suas demandas. Tem sido um bom negócio para ambas as partes: eles garantem a manutenção de Michel Temer (inclusive com a concessão de votos para livrar seu pescoço das denúncias de corrupção passiva, organização criminosa e obstrução de Justiça) e, em troca, ganham perdões bilionários e apoio para sua pauta de retorno ao feudalismo. Querem mudar as regras da demarcação de territórios indígenas, suprimir ainda mais a proteção ambiental, ''flexibilizar'' as regras para a implantação de grandes empreendimentos, enfraquecer  o conceito de trabalho escravo contemporâneo, atenuar a punição para as piores formas de trabalho infantil. E, principalmente, desejam manter sob seu domínio a terra que, muitas vezes, grilaram da coletividade ou roubaram de comunidades tradicionais. Passando bala em quem estiver no meio do caminho, em alguns casos. Qual o município mais violento do Brasil? Rio de Janeiro, com seus 40 mortos por 100 mil habitantes? Não, Altamira, no Pará, com seus 107 mortos por 100 mil habitantes.

Em tempo: Um grupo de homens armados atacou um acampamento com dez famílias de trabalhadores rurais no município de São João do Araguaia, próximo à Marabá, no Estado do Pará, em maio deste ano. Encapuzados, chegaram às margens do rio Araguaia, onde elas estavam acampadas, em duas caminhonetes com pistolas, revólveres e escopetas. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, adultos e até bebês foram vítimas de uma sessão de tortura por quase uma hora. ''Os adultos foram espancados a golpes de paus, facões e coronhadas. As marcas ficaram espalhadas pelos corpos dos trabalhadores. Os pistoleiros dispararam suas armas próximo do ouvido de duas crianças gêmeas de três meses de idade para aterrorizar sua mãe. Atiraram em redes com crianças dentro, além de derrubarem e pisotearem crianças no chão. Uma das mães que estava grávida, que também foi pisoteada e teve sangramento'', afirma nota da Comissão Pastoral da Terra. No acampamento, havia crianças entre três meses e dez anos de idade.

Malditas crianças, canalhas e vagabundas.

Link da matéria: