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23 de mar. de 2019

MST - Comunicado nº 24/2019 - SÓ A GREVE OPERÁRIA JÁ NÃO AGLUTINA AS MASSAS - Entrevista de João Pedro Stedile ao Tutameia

Comunicado nº 24/2019
 São Paulo, 22 de março de 2019
 
SÓ A GREVE OPERÁRIA JÁ NÃO AGLUTINA AS MASSAS



A viagem de Jair Bolsonaro aos EUA deixou clara a subordinação descarada aos interesses do capital norte-americano. Essa subserviência do governo é uma jogada burra da burguesia brasileira. Bolsonaro é um presidente despreparado e foi eleito por uma fraude; ele não tem base social real da maioria da população brasileira. As contradições entre os grupos que estão no poder vão inviabilizar o governo.

A análise é de João Pedro Stedile ao TUTAMÉIA. Dirigente histórico do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), ele afirma: “Lutar pela liberdade do Lula é lutar para se recompor a democracia no Brasil. Precisamos mostrar para a população que o Lula só está preso porque eles precisam calá-lo. Ele pode ser o líder da maioria do povo para fazermos um grande mutirão nacional para nos contrapormos a esse governo”.

Para ele, o atual governo “não tem projeto de desenvolvimento nacional e não tem interesse em resolver os problemas do povo. É fundamental termos um outro projeto e um outro debate na sociedade. Enquanto o Lula estiver preso vai ser muito difícil fazermos esse debate na sociedade e recuperarmos espaços de democracia. Temos que nos livrar dessa mentira de que o Lula é ladrão, provar para a população que o Lula é um líder popular e seu único compromisso é com as mudanças a favor do povo”.

E segue:

“Lula tem o papel fundamental de unir o povo. O afastamento do Lula gera também disputas internas no partido, oportunismos de todo o tipo. O Lula solto recomporia a unidade dentro do PT e entre os partidos de esquerda”.

PEITAR O GOVERNO E O CAPITALISMO

Na visão de Stedile, não há outros líderes da estatura de Lula porque “quem produz os líderes não são os partidos, mas o movimento de massa. E houve um refluxo do movimento de massas nos últimos 20 anos. A própria esquerda se confiou nos espaços institucionais e deixou de estimular mobilização popular”, diz.

Sua avaliação é a de que o movimento popular segue em refluxo. Pode ser que a ameaça de fim da aposentadoria pública e/ou a crise econômica levem à “eclosão de uma rebeldia no Brasil” –o que depende também da capacidade de organização. Stedile lembra que, no passado, o “reascenso era baseado no operariado industrial, no sindicato e no partido. Era quando o capitalismo industrial era o hegemônico. Agora é o capitalismo financeiro”.

Assim, declara: “A esquerda terá que ser mais criativa e desenvolver novas formas de organização. Só a greve operária já não aglutina mais as massas. A greve por si só não tem se revelado uma forma de se fazer o reascenso do movimento de massas. A esquerda precisa sentar , ter humildade e ser mais criativa e ver outras formas: pela cultura, por outras manifestações de massas que possam ser peitar o governo, peitar o capitalismo”.

DERROTAR O SISTEMA FINANCEIRO

“Nenhum intelectual sério hoje defende o capitalismo. O capitalismo já é do passado.O capitalismo não resolve mais o problema da humanidade. No passado, ele foi progressista. Depois da Segunda Guerra Mundial, as políticas social-democratas capitalistas resolviam os problemas das massas. Hoje, o capitalismo já está no seu final. O capitalismo já não é solução. Ninguém pode defender o lucro como solução para os problemas da humanidade. O capitalismo já não é solução para a humanidade. O grande debate ideológico que se abrirá é sobre o que vamos construir no seu lugar”, diz.

É por essa razão, segundo ele, que voltam a ter presença as ideias do socialismo. Ele acha mais prudente falar em sociedade igualitária, socialização dos meios de produção, “que todos possam ter renda, trabalho, escola, casa, emprego, saúde, alimento saudável”.

Stedile defende que é preciso derrotar o sistema financeiro –“o inimigo principal de todos nós e a porta para derrotarmos o capitalismo e entrarmos para um novo modo de produção. E acrescenta: “Os nossos inimigos principais são os bancos e as corporações transnacionais.Sobre essa plataforma, nós conseguiremos ampla base social em todo o mundo”.

VENEZUELA, LULA

Na entrevista ao TUTAMÉIA, Stedile, 65, tratou de Venezuela, da Campanha por Lula Livre, da destruição promovida pelo governo Bolsonaro e de novos paradigmas para o desenvolvimento do país.

“O que está em jogo na Venezuela é com quem vai ficar com a renda petroleira. Se com as empresas petroleiras americanas ou com o povo da Venezuela”, resume.

“Trump está cada vez mais desmoralizado. Ele quer o petróleo [venezuelano] e precisa de uma causa externa. Ele vai perder as eleições. A derrota de Trump abrirá uma nova situação na geopolítica internacional”, afirma.

Stedile convocou manifestações por Lula Livre de 7 a 10 de abril. “Se alguém tinha alguma dúvida de que o Moro trabalha para os americanos, agora ele deixou atestado. Moro foi na CIA e ao FBI prestar conta para os seus verdadeiros patrões. Temos que protestar contra o Moro. O Moro não tem moral”.

EMBRAER É MAIS IMPORTANTE DO QUE A PECUÁRIA

Na avaliação de Stedile, “o Brasil precisa de um novo modelo agrícola que não esteja fundado no lucro e na produção de commodities para o exterior. O agronegócio como modelo de economia nacional já está falido. É uma burrice utilizar um território tão amplo como o brasileiro (300 milhões de hectares agriculturáveis), com soja, cana, milho, pecuária. Nenhuma economia do mundo pode se sustentar em dois ou três produtos agrícolas para exportação. E competimos com os EUA. Comprar briga com a China, que é nosso parceiro, é uma burrice. Essas contradições da geopolítica internacional vão aflorar mais rápida ao que imaginávamos”.

Para um projeto de verdadeiro desenvolvimento nacional, diz, “precisamos usar esses 300 milhões de hectares de forma mais racional. Temos que produzir alimentos saudáveis para toda a população, estimulando a pluricultura, não a monocultura. Todas as exportações de carne bovina no brasil representam 5 bilhões de dólares. A Embraer, sozinha, com os seus 100 hectares em São José dos Campos e doze mil operários e alta tecnologia exporta por ano 6 bilhões de dólares. A Embraer é mais importante para a economia brasileira do que a pecuária extensiva”.

Como exemplo dos descaminhos do modelo, o dirigente do MST fala da evolução econômica de Ribeirão Preto, antes baseada em várias culturas agrícolas. Hoje, “Ribeirão Preto só tem cana. A população carcerária de Ribeirão Preto é de 2.700 presos A população rural é de 2.400. Isso é modelo de sociedade? Em que a população carcerária é maior do que a população que se dedica à agricultura? Claro que não”.

Stedile discorre também sobre o impacto ambiental do uso de venenos nas monoculturas. E afirma:

“O Brasil precisa de um novo modelo agrícola que não esteja fundado no lucro e na produção de commodities para o exterior. Precisamos de outros paradigmas:

1. Produzir alimentos saudáveis para a população, com políticas públicas do governo que estimulem o produtor familiar;

2. A agricultura em que garantir trabalho, a fixação no meio rural. Como? Garantindo renda à agricultura que produz alimentos;

3. Proteger o ambiente;

4. Levar educação ao campo.

Isso é reforma agrária”.  


Link da matéria:

Vídeo da entrevista: 

29 de jan. de 2019

MST celebra 35 anos e reafirma luta por reforma agrária e alimentos saudáveis

Comunicado nº 07/2019
 São Paulo, 28 de janeiro de 2019
 
MST celebra 35 anos e reafirma luta por reforma agrária e alimentos saudáveis

Ato político na Escola Nacional Florestan Fernandes teve a participação de 400 militantes. “Não vamos abrir mão de continuar em luta”, disse João Pedro Stédile


São Paulo – O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) celebrou neste sábado (26) seus 35 anos de existência em encontro com 400 militantes na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema (SP). “Não vamos abrir mão de continuar em luta.

Ocupando terra, dialogando com a sociedade, defendendo os direitos da classe trabalhadora e produzindo alimentos saudáveis”, afirmou o representante da direção nacional do MST, João Pedro Stédile, que ressaltou a disposição de toda a militância do movimento de seguir em resistência e em luta permanente.

O ato político contou com a presença de parlamentares, representantes de movimentos populares, professores universitários e amigos e amigas da organização, e reafirmou em toda sua mística a disposição dos Sem Terra em todo o país de seguir na construção da resistência, que possa avançar na construção do projeto de Reforma Agrária Popular e de um novo modelo de sociedade.

Moisés Borges, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) reforçou o legado do MST na luta no país. “São 35 anos de história, 35 anos de luta, de organização e de exemplo para os movimentos populares, nessa capacidade incrível de se reinventar. Esse exemplo é o que faz com que a gente acredite que esse cenário político que vivemos hoje, será derrotado por nós”, disse.

Participaram ainda do ato político Rui Falcão, do Partido dos Trabalhadores (PT), Walter Sorrentino, do PCdoB, Vagner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), representação do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Levante Popular da Juventude, Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), além de parlamentares do PT e PCdoB.

Crianças, jovens, homens, mulheres, sujeitos da diversidade sexual, negros e negras, referendando a identidade Sem Terra, de punhos erguidos, bandeiras tremulando no alto e ferramentas de trabalho em mãos, fizeram ecoar juntos e juntas a mensagem da resistência daqueles e daquelas que amam a revolução.

Representando o PT, Rui Falcão destacou o papel do MST na organização e na luta da classe trabalhadora no país.

“O MST surge numa década de grandes mudanças, década em que em conjunto nós conseguimos derrotar a ditadura e agora, 35 anos depois, nos deparamos com outro tipo de ditadura. Uma ditadura que não coloca tanques e fuzis na rua, mas se associa com a mídia, com o judiciário e com o grande capital para retirar direitos do povo”, disse. “O MST foi e segue sendo importante nessa trajetória e temos toda a disposição de lutarmos juntos nas ruas, no parlamento, em unidade, para que a gente possa trazer de volta ao Brasil a democracia e os direitos”, concluiu.

O ato marcou a entrega da Menção Honrosa da Assembleia Legislativa do Paraná em homenagem aos 35 anos do MST, entregue pelo Deputado Estadual Professor Lemos (PT) ao conjunto do Movimento, destacando o papel do MST na luta pela terra no Paraná e em todo o país.

Durante o ato, o MST lançou a “Carta ao Povo Brasileiro”, abordando a posição do Movimento na atual conjuntura política brasileira e internacional. “Lutaremos pela democracia, pela justiça, pela igualdade, pela defesa dos bens da natureza, pela democratização da terra e pela produção de alimentos saudáveis para alimentar o povo brasileiro”, destacou trecho da carta.

A carta reforça ainda a solidariedade do Movimento ao Povo Venezuelano, na luta pela soberania dos povos em todo o mundo.

Confira a Carta ao Povo Brasileiro na íntegra:

O Movimento Sem Terra celebra seus 35 anos de luta pela reforma agrária e por justiça social. Nascemos no final da ditadura civil-militar, junto com milhares de lutadores e lutadoras que defenderam a democracia e desafiaram o autoritarismo. Mais uma vez, reafirmamos nosso compromisso de lutar pela democratização da terra, pela produção de alimentos saudáveis, pela soberania popular e por uma sociedade emancipada.

Diante da crise estrutural do capital, com consequências graves e destrutivas para a natureza e a humanidade, nossas tarefas políticas se tornam ainda mais urgentes e necessárias. As saídas apresentadas pelo capital financeiro, nada tem a ver com as necessidades humanas, pois resultam em aumento da superexploração dos trabalhadores e trabalhadoras, através da precarização do trabalho, desmonte das políticas públicas, agressiva retirada de direitos e expropriações diversas, elevando de forma brutal, os níveis de desigualdade social. Para executá-las, o capital requer um Estado cada vez mais autoritário, voltado à repressão, violentando e perseguindo os mais pobres, promovendo um cruel genocídio da juventude negra.

Foi desta forma que os meios de comunicação, o poder judiciário, os bancos, os militares e o agronegócio, levaram ao poder, neofascista e ultraliberal, um capitão reformado que atua pelas formas mais baixas e vulgares da política, para manter os privilégios dos que historicamente saquearam o país e atacar diretamente os direitos da classe trabalhadora, através de ajustes fiscais, privatizações e subordinação da nossa economia ao capital internacional, principalmente dos EUA. 

A subordinação das questões indígenas, fundiárias e ambientais aos interesses da bancada ruralista e do agrotóxico no Ministério da Agricultura; o desmonte da previdência social; a ameaça da entrega das empresas e bancos nacionais, como Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal; a liberação da posse de armas são algumas das políticas mortíferas adotadas por esse (des)governo, que colocam em risco a nossa biodiversidade e acirram os conflitos no campo atingindo frontalmente os indígenas, quilombolas, ribeirinhos, camponeses, assentados e acampados da Reforma Agrária e evidencia a característica  antinacional e antipopular do atual governo.  

É preciso ocupar as ruas e as praças denunciando a voracidade dessas políticas que aprofundam a expropriação e exploração capitalista. 

Assim, nos comprometemos em lutar e defender todos e todas trabalhadores e trabalhadoras que tenham sua existência ameaçada. Seguiremos defendendo a soberania dos e povos e lutando contra qualquer tipo de ingerência política e/ou intervencionismo militar em qualquer país. Declaramos total solidariedades ao povo Venezuelano!

Nos solidarizamos com as famílias atingidas pela barragem de Brumadinho, vítimas de mais uma ação criminosa e reincidente da Vale, uma assassina protegida pelo poder judiciário.
Nos somaremos a mobilização das mulheres trabalhadoras no 8 de março, seremos zeladores do legado e a memória de Marielle Franco e de tantos outros companheiros e companheiras que tombaram, exigindo a punição dos seus assassinos e mandantes. Defenderemos a liberdade do companheiro Lula, cuja prisão política foi utilizada para que esse projeto fosse vitorioso nas eleições.

Nos comprometemos em fortalecer a Frente Brasil Popular e todas as iniciativas de luta da classe trabalhadora que confrontem a exploração, a subordinação e a opressão, nos somando na luta cotidiana das mulheres, da população urbana e camponesa, dos negros e negras, dos povos indígenas e dos sujeitos LGBT. 

Lutaremos pela democracia, pela justiça, pela igualdade, pela defesa dos bens da natureza, pela democratização da terra e pela produção de alimentos saudáveis para alimentar o povo brasileiro. 

Lutar, construir Reforma Agrária Popular!

Coordenação Nacional do MST



Link da matéria: 

30 de abr. de 2018

MST colheu 27 mil toneladas de arroz orgânico no Rio Grande do Sul

14ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz Agroecológico (Foto: MST)
Em tempos de investigações de fraudes que colocam sob suspeita os produtos e os modos de produção de alimentos provenientes da indústria que integra o agronegóciobrasileiro, as 27 mil toneladas de arroz orgânico (livre de veneno) da safra 2017 produzidas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) apontam para um outro modelo viável de produção. Atualmente, o MST é líder na produção de arroz orgânico na América Latina.
A reportagem é de Gilson Camargo, publicada por ExtraClasse, 25-04-2018.
agricultura orgânica vai além das feiras ecológicas de final de semana – como poderiam argumentar os críticos do movimento. Ela incide sobre os indicadores da agropecuária no país. Em 2015, o Ministério da Agricultura constatou que o total de agricultores certificados para a produção livre de agrotóxicos duplicou no período de 12 meses, ultrapassando 10,5 mil produtores. Até 2019, a certificação orgânica deverá envolver 30 mil produtores. No Rio Grande do Sul, a agricultura familiar vem respondendo por mais da metade das receitas provenientes da atividade agropecuária na última década. Nesse período, as unidades de produção familiares geridas de forma sustentável responderam por 49% dos R$ 14 bilhões de receitas geradas pela atividade agropecuária.
"Até hoje a sociedade tem certa resistência, parece que nós somos uns animaizinhos, mas pode escrever: a agricultura livre de agrotóxicos não tem a ver só com o movimento dos sem-terra, é de interesse de todo mundo, especialmente em um momento de crise da indústria em todos os setores”, resume Nilvo Bosa, presidente da Cooperativa deProdução Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan) e um dos pioneiros do assentamento Capela, região Metropolitana de Porto Alegre. “Não é uma opção puramente econômica, mas por um modo de vida íntegro, que enxerga a agriculturacomo uma atividade ecológica para o benefício das famílias que produzem e daquelas que consomem, com respeito ao ambiente e à biodiversidade”, detalha Bosa, que vê com naturalidade a discriminação aos sem-terra, mesmo de quem frequenta feirinhas e consome os alimentos produzidos nos assentamentos. “Ideologicamente a gente não discute com ninguém, mas está comprovado que, aplicando inseticida na lavoura, o que vem pela frente é intoxicação”.

Líderes na América Latina

Os sem-terra são os maiores produtores de arroz agroecológico da América Latina, atividade que envolve 616 famílias em área plantada de 5 mil hectares (cerca de 5% da área total de arroz no estado) nos 22 assentamentos localizados em 16 municípios gaúchos. A safra 2016-2017 é a maior da história dos assentamentos, com a colheita de 27 mil toneladas ou 550 mil sacas, produção 40% superior à colheita do ano passado. As famílias de agricultores envolvidas no cultivo de grãos e sementes estão organizadas no Grupo Gestor do Arroz Agroecológico. “O sistema de produção utilizado pelos sem-terra busca consolidar alternativas à agricultura do agronegócio, estabelecendo uma relação de integração e respeito entre os seres humanos e os recursos naturais. A produção do arroz é feita com técnicas que estimulam a fertilidade do solo e a produção de alimentos saudáveis, com mais qualidade de vida aos produtores e consumidores e renda às famílias assentadas”, ressaltou Emerson Giacomelli, coordenador da iniciativa, durante a abertura da 14ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz Agroecológico, no dia 17 de março.

O evento reuniu centenas de agricultores sem-terra na sede comunitária Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita, localizada no Assentamento Capela, no município de Nova Santa Rita, a 40 quilômetros de Porto Alegre, com a presença de João Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST e do frei Leonardo Boff. “A agroecologia é simbólica da resistência do povo brasileiro. Vocês que vêm se dedicando, nestes 15 anos, a produzir arroz orgânico são motivo de orgulho do nosso movimento e representam a prova de que é possível outra agricultura, sem usar veneno e transgênicos. Vocês são vanguarda”, disse Stédile aos sem-terra.
“Os agrotóxicos não foram inventados para produzir alimentos para todos, mas para lucrar mais, vender com mais facilidade do que atender as demandas humanas. Não matam só as pragas da lavoura, matam os seres humanos e tudo que dá vitalidade à terra”, acrescentou Boff. (Leia também a entrevista com o frei Leonardo Boff realizada no evento)

Assentamento Capela é simbólico da luta e da resistência dos trabalhadores sem-terra. A área foi conquistada a partir da mobilização iniciada em setembro de 1989, com a ocupação da Fazenda Bacaraí, em Cruz Alta. “Oriundos de diversos municípios, os sem-terra enfrentaram miséria, morte, opressão das forças policiais e inúmeras falsas promessas de assentamento dos governos”, explica Giacomelli. “A mobilização durou mais de cinco anos, com greve de fome, marchas, ocupações e atos públicos para expor à sociedade a desigualdade existente no campo, além da importância da democratização da terra e de um modelo agrícola que contemplasse a todos”. Em 1993, a área foi ocupada pela terceira vez. “O latifúndio estava penhorado, resultando na desapropriação de 2.170 hectares e na criação do assentamento para cem famílias em 5 de maio de 1994”. Atualmente organizado em núcleos familiares, os assentados produzem arroz orgânico e convencional, gado leiteiro e de corte, hortaliças e suínos para comercialização e cultivo para o próprio.­


Experiência nos assentamentos faz escola fora do país

Além do esforço para ampliar o acesso da população aos orgânicos produzidos nos assentamentos, o MST faz escola na América Latina, levando suas experiências a agricultores de outros países. Em novembro do ano passado, o militante sem-terra Daniel Victor da Silva, de Ronda Alta, e Ricardo Volpi, filho de assentados da reforma agrária em Pontão, no norte do estado, embarcaram para a Venezuela para ajudar camponeses a desenvolver a produção agroecológica a partir do que aprenderam no curso técnico em agropecuária com habilitação em agroecologia. A formação é ofertada desde 2005 pelo Instituto Educar, uma escola construída pelo MST na antiga Fazenda Anoni (Sarandi/RS), em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) – campus Sertão.
MST fazendo colheita de arroz orgânico (Foto: MST)
As primeiras experiências do MST na produção orgânica de arroz foram desenvolvidas em 1999, nos assentamentos da reforma agrária na região Metropolitana de Porto Alegre. Todo o processo de produção, industrialização e comercialização é coordenado pela Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre(Cootap), por meio da marca comercial Terra Livre.
Atualmente, parte da produção é destinada ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), mas o arroz também vai para São Paulo e é exportado para a Venezuela. Em Porto Alegre, arroz agroecológico pode ser adquirido no Mercado Público e em feiras ecológicasda capital e de Canoas. A certificação orgânica é realizada em todas as etapas da produção do arroz, com base em normas nacionais e internacionais, desde o ano de 2004. Ela ocorre por meio de dois procedimentos: certificação participativa (Opac – Coceargs) e auditoria (IMO – Ceres).

A única cooperativa de sementes orgânicas fica no RS

Com sede em Candiota, na região da Campanha, a Rede Bionatur é a única cooperativa de sementes orgânicas do país, certificada pelo Instituto Biodinâmico(IBD) de acordo com normas da agricultura orgânica do Ministério da Agricultura. A produção envolve mais de 160 famílias de agricultores do MST em diversas regiões do estado e abastece as cooperativas do próprio movimento em todo o país e agricultores orgânicos da Venezuela.

As sementes também são acessíveis às escolas, por meio do Programa Sementes Banrisul e à população, com venda direta nas feiras ecológicas e do kit horta urbana – com 20 variedades de hortaliças. A cooperativa produz cerca de cem variedades de sementes crioulas, 33 tipos de grãos, 15 de forrageiras e 12 de flores. Com sede em Candiota, na região da Campanha, a cooperativa tem a meta de passar a produção de 4 para 8 toneladas de hortaliças na safra de verão.

Para forrageiras, a estimativa é aumentar das atuais 40 toneladas para 70. A safra de sementes de milho e feijão crioulos é de 30 toneladas. Fundada em 1997 por agricultores assentados de Hulha Negra, a cooperativa foi o caminho para superar o modelo de produção convencional praticado pelas empresas de sementes de hortaliças que atuavam na região, com base no uso intensivo de agrotóxicos. Os agricultoresficavam submetidos às condições desfavoráveis de negociação e manejo da produção ditados pelas empresas, explica Roberta Coimbra, assentada em Piratini e integrante do grupo produtor de sementes. “A organização da cooperativa se deu em condições precárias, sem estradas, sem eletricidade. Os 25 agricultores envolvidos nessa iniciativa queriam mostrar que é possível preservar o material genético das culturas orgânicas e manter o controle do ciclo de produção”.