O que a fala de secretário dos EUA revela sobre o bolsona rismo
Não há uma epidemia de militares obesos e barbados nos EUA. Nem os quartéis viraram um espécie de clube da luluzinha
O Estado de S. Paulo. · 13 out. 2025 · MARCELO GODOY
Uma reunião estranha. Um secretário que prefere ser chamado de secretário da Guerra e seu presidente mandam reunir 800 oficiais generais e sargentos em Quantico, na Virgínia, para mostrar que “ao meu comando” todos devem pensar como o chefe. Seria trocar o juramento de lealdade à Constituição pela lealdade ao líder?
Ao ouvir o discurso de Pete Hegseth, seguido pelo de Donald Trump, é impossível não se recordar do general Mark Milley, aquele que se desculpou por ter acompanhado fardado o chefe em uma saída de Trump próxima à Casa Branca, durante protestos, e que reagiu contra a tentativa de invasão do Capitólio, no dia da confirmação da posse de Joe Biden. O que a reunião em Quantico buscava mostrar aos generais é que um novo Milley não seria tolerado. Nada contra o que Hegseth pregou existe de fato nas Forças Armadas dos EUA. Não há uma epidemia de militares obesos e barbados. Nem os quartéis se transformaram em um clube da luluzinha. Mas a China continua sendo uma ameaça aos Estados Unidos. E outros polos de poder começam a despontar, como a Índia.
O Estadão foi ouvir alguns militares brasileiros sobre suas impressões a respeito do discurso de Hegseth e as implicações para nova Estratégia Nacional de Defesa dos EUA. Um deles resu miu bem a cena e o espírito do que se viu: o coronel Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, do Centro de Es
Discurso O secretário Hegseth manifesta uma ideologia que acha mais importante bater o ini migo interno
tudos Estratégicos do Exército (CEEx). “Ouvi integralmente o discurso. Até 5 minutos e meio é um discurso com generalidades, que poderia ser dito por qualquer pessoa”, disse. Paulo Filho continuou sua análise, afirmando: “A partir de então, ele fala do que vai tratar: ‘Essa conversa aqui hoje é sobre cultura, hoje vamos falar de cultura’. E começa a desenhar um quadro do Exército americano que não é real. Quantos oficiais americanos barbados você já viu na sua vida? Um ou outro, exceção. O Exército virou woke, perdeu poder combativo? Isso é uma falácia. O Exército americano é a mais poderosa força armada de todos os tempos; não tem comparação com nenhuma outra”. O coronel prosseguiu: “Hegseth disse que os padrões de mulher e de homem em funções de combate vão ser iguais. Mas eles já são iguais. Disse que vão fazer dois testes físicos por ano. Já são dois. O que chocou os generais presentes, com
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30, 40 anos de serviço, é que eles sabem que o Exército que o Hegseth diz que precisa mudar, já é tudo isso. Isso é que chocou, essa guerra cultural sendo levada ao Exército americano”. Paulo Filho não disse. Mas a vitória de Hegseth em sua guerra cultural interessa apenas ao seu grupo político. Só ele sairá vitorioso se o secretário tiver sucesso em sua cruzada. A questão é: os militares americanos têm os anticorpos necessários para resistir à tentação autoritária de transformar as Forças Armadas em braço armado de um grupo político? Décadas de controle civil objetivo e de fidelidade à Constituição e não a um líder resistirão ao novo governo Trump?
INIMIGO INTERNO. Hegseth é a manifestação de uma ideologia, que acha mais importante o inimigo interno, que quer escolher quem é o povo e quem dele não faz parte. Quer redirecio nar suas forças ao hemisfério ocidental, combater o narcotráfico, a imigração e outros “inimi gos internos”. A Argentina de Videla sabe o que isso significa.
Pior. Trata-se de uma política militar tão “produtiva” quanto a desejada pelos pacifistas euro peus nos anos 1980. Há 40 anos, François Mitterrand lembrava aos manifestantes pela paz a dura realidade da disputa de poder entre as nações “Os pacifistas estão a Oeste e os mísseis, a Leste”. Os traficantes de droga estão, hoje, no Caribe e os mísseis hipersônicos, no Pacífico. A arrogância só leva à derrota. Seja em Siracusa ou nas Malvinas.
Nunca é demais lembrar Samuel Huntington: “A menos que seja criado um novo equilíbrio, a contínua ruptura das relações entre civis e militares não pode ajudar, mas prejudicar a dimen são do profissionalismo militar no futuro. Um corpo de oficiais políticos, dividido em facções, subordinado a fins ocultos, ressentindo-se de prestígio, mas sensível aos apelos da populari dade, colocaria em perigo a segurança do Estado”.
O Brasil passou por situação semelhante à dos EUA durante o governo de Jair Bolsonaro. O discurso do presidente galvanizou parte considerável dos militares. Muitos se deixaram envolver pela ideia de que estavam salvando o País da corrupção, não só política, como tam bém dos costumes. Outros, simplesmente, deixaram-se seduzir pelas tentações de Brasília, da vaga coberta no estacionamento ao privilégio de ouvir os gracejos presidenciais. Mas... E se o bolsonarismo voltasse ao poder em 2026? Em vez de comício na porta de quartel, veríamos um presidente exigindo juramento de fidelidade dos generais e promovendo uma caça aos “melancias” e legalistas que impediram o golpe de 2022? No Forte Apache, em Brasí lia, afirma-se a existência de um consenso na caserna. O Exército aprendeu a lição. Nenhum radical – à direita ou à esquerda – teria sucesso em cooptá-lo para uma aventura. Para o bem e para o mal – lembrou um general – os militares brasileiros são diferentes dos americanos. •
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