7 de mar. de 2023

O CASAMENTO DA RAZÃO COM A EMOÇÃO! (Claudio de Moura Castro, pesquisador em Educação e doutor em Economia pela Universidade Vanderbilt – O Estado de SP, 05)

 

O CASAMENTO DA RAZÃO COM A EMOÇÃO!

(Claudio de Moura Castro, pesquisador em Educação e doutor em Economia pela Universidade Vanderbilt – O Estado de SP, 05) Escritas há quase 3 mil anos, a Ilíada e a Odisseia moldaram a identidade grega. A Bíblia disseminou o cristianismo. O Corão faz o mesmo para o Islã. Os Lusíadas esculpiram a alma portuguesa. Note-se, além do seu gigantesco impacto, todos esses livros são contações de histórias. Homero, Jesus Cristo, Maomé e Camões sabiam do poder das narrativas, mesmo sem haver feito cursos de Teoria Cognitiva.

É imbatível a mescla de mensagens sérias com emoções. Ao mesmo tempo que nosso intelecto se esgrima com as ideias a serem aprendidas, em outro nível somos capturados pelas emoções da narrativa. Essa dose dupla faz milagres.

De fato, contar histórias é um maravilhoso meio de transmitir mensagens importantes. Digamos que é um namoro feliz da razão com a emoção. E isso é verdade em qualquer assunto. Não nos esqueçamos, os bons professores são bons contadores de histórias.

Embora correta, até há pouco era apenas intuitiva a percepção acerca do poder das histórias. Hoje, a ciência tem o que dizer. Nosso cérebro tem dois lados ou dois hemisférios. O esquerdo processa os assuntos da razão; o da direita, os da emoção. Os assuntos de escola estão quase todos no hemisfério da razão: tabuada, descoberta do Brasil, lei da gravitação universal ou conjugações de verbos irregulares.

Porém, quando esses assuntos de razão se mesclam com emoções, acontecem coisas curiosas. A emoção é sempre mais profunda, portanto, mais lembrada. Sendo assim, quando entra a emoção nos assuntos de razão, ela ajuda a gravar na memória assuntos perfeitamente frios.

Muitos se lembram do que estavam fazendo quando Kennedy foi assassinado. O mesmo com as Torres Gêmeas. Ou os 7 x 1 da Copa do Mundo. A emoção é tão poderosa que se colam nela fatos sem qualquer relevo, mas que aconteceram na mesma ocasião.

Vejamos o que se passa dentro no nosso cérebro, através dos aparelhos de ressonância magnética, capazes de mapear as atividades mentais de cada pedacinho da nossa cabeça. Cintilações aparecem na tela onde as atividades mentais estão ocorrendo. Suponha-se que estamos aprendendo verbos irregulares. Com certeza, o aparelho iria mostrar o hemisfério esquerdo cintilando. E nada mais. Por outro lado, se ouvimos um caso bem triste, o que cintila, então, é o direito.

Agora imaginemos um curso de Medicina em que o professor dá uma aula sobre úlceras, mostrando o efeito dos antibióticos sobre elas. Se o aluno estivesse num aparelho de ressonância magnética, o hemisfério esquerdo estaria pipocando e o direito, adormecido. É o esperado.

Imaginem a mesma aula, porém começando com a história de um médico australiano totalmente desconhecido, o dr. Robin Warren. Fazendo autópsias de cadáveres com úlcera péptica, suspeitou de que poderiam ser causadas por bactérias. Foi ridicularizado. Insatisfeito, fez-se infectar e, de fato, contraiu a doença. Em seguida, tomou um antibiótico, curando-se. Depois de ouvir essa história, prossegue a aula sobre úlcera, igualzinha à outra.

Na primeira, centelharia o hemisfério esquerdo. Na segunda, centelhariam os dois. Conclusão: a segunda aula será lembrada pelo resto da vida. A primeira ficou mortiça na memória.

Em suma, contar histórias é a melhor pedagogia. Se conseguirmos enfiar nossas mensagens racionais numa narrativa palpitante, o assunto será mais lembrado. A combinação de uma narrativa racional com uma outra, paralela e emocional, torna o aprendizado muito mais profundo e duradouro.

Foram feitos experimentos ensinando aos alunos algum capítulo importante da História. Outro grupo viu um filme comercial sobre o mesmo tema. Perguntados um ano depois, os que viram o filme se lembravam mais daquele episódio da História. Por quê? É simples: produtores de filme sabem que, sem emoções, o filme não vende. E emoções ajudam a gravar na memória o que quer que venha junto. Se o experimento incluísse um aparelho de ressonância magnética, na aula cintilaria apenas o lado esquerdo. No filme, os dois.

O Telecurso 2000 eliminou as imagens de um professor dando aula. Os mesmos assuntos, dramatizados, são apresentados em situações de trabalho ou de rua. Ocorrem desentendimentos e enfiam-se todas as emoções que um bom produtor de filmes conhece bem. É muito mais eficaz.

Em outros tempos, a coleção de Monteiro Lobato fazia isso com brilho. Eram narrativas de aventuras, entremeadas com conhecimentos escolares. No meu caso, aprendi mais sobre assuntos do currículo do que na escola. E não sou o único a dizer isso.

Alguns professores de Administração de Empresa usam filmes do circuito comercial para provocar discussões sobre temas centrais de gestão. Podem ser assuntos de liderança, de crises institucionais, conflitos éticos e muito mais. Amplo sucesso.

Recuperando, falamos do namoro da razão com a emoção. Mesmo um assunto puramente racional pode ser aprendido com mais motivação e maior retenção no longo prazo se forem mobilizadas as emoções. Daí os atrativos enormes de contar histórias contendo lições disto ou daquilo. E, por estar na moda, contação de história virou storytelling, ganhando charme.

Créditos Brasil 247

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