O COROL ÁRIO TRUMP DA DOUTRINA MONROE A intervenção é o meio. Qual é o fim? Os interesses dos EUA na América Latina, quem os entrega e quem paga a conta
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O COROL ÁRIO TRUMP DA DOUTRINA MONROE
A intervenção é o meio. Qual é o fim? Os interesses dos EUA na América Latina, quem os entrega e quem paga a conta
Análise apresentada na DN-MST 07/10/2026
Stephanie Weatherbee Brito – Assembleia Internacional dos Povos
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-------------------Muito se tem falado sobre interferência estrangeira na região desde o anúncio do Corolário Trump da Doutrina Monroe. Mas a intervenção é apenas o meio; o que importa é o fim. O Corolário não muda nada de essencial na Doutrina Monroe: apenas torna explícita a sua intenção. Agitar contra a intervenção sem dizer o que ela busca mantém o debate sobre soberania num plano abstrato. Mesmo no campo militante, fala-se muito em preservar a soberania e pouco sobre o que a sua perda implica concretamente — e é por isso que o tema ainda não chegou às massas.
Este texto parte de quatro perguntas: quais são os interesses específicos dos EUA na América Latina hoje; como governos com intervenção conhecida dos EUA, como os da Argentina e do Equador, favorecem esses interesses; quanto isso custa à população; e como os povos estão respondendo.
1. O que os EUA querem
Uma forma de medir os interesses dos EUA é olhar para o investimento estrangeiro direto: quanto as empresas estadunidenses investem, e em quê. Quem investe tende a controlar o setor em que investe e exige dos governos as condições para que o investimento seja lucrativo. Outra forma é observar as condições que Washington impõe para reduzir o tarifaço ou para conceder empréstimos. O governo Trump, aliás, fala de seus interesses de forma explícita — um gancho que a esquerda regional ainda não aproveitou, continuando a tratar o tema de maneira superficial.
Historicamente, os setores prioritários foram energia, minerais e finanças; a novidade é a economia digital. Por trás de cada setor há beneficiários concretos (Quadro 1). O Estado dos EUA age a favor das frações da burguesia que compõem o bloco no poder na Casa Branca de Trump: finanças, plataformas digitais e energia. Minerais criticos devem ser compreendidos como interesses estratégicos do Estado e não particulares de um ou outro setor da economía.
Quadro 1 — Os setores de interesse dos EUA e quem se beneficia.
Esses interesses se definem também pela disputa com outras potências. Os EUA querem continuar sendo o principal investidor das economias latino-americanas; competem com a Europa, mas consideram a China a ameaça maior. E a China lidera justamente nos setores novos: nos minerais da transição energética, seu investimento direto mais que dobrou; na indústria automotiva, foi majoritariamente para veículos elétricos e híbridos; na mineração greenfield, investe 20 vezes mais que os EUA. O Brasil está no centro dessa disputa: em 2025, voltou a ser o principal destino do investimento chinês no mundo, com US$ 6,1 bilhões, 45% a mais que em 2024, inclusive em áreas novas, como o data center da ByteDance (TikTok).
2. Como os governos entregam
Energia. Os EUA já investiam pesado em petróleo e gás na região; a novidade, sob o Corolário Trump, é o investimento no petróleo da Venezuela e no xisto da Argentina. No Equador, Noboa abriu o campo de Sacha, o maior do país, a uma disputa em que grandes petroleiras ocidentais devem ganhar acesso à frente da China.
Minerais críticos. Em fevereiro de 2026 foram assinados 11 acordos-quadro bilaterais sobre minerais críticos, entre eles com Argentina, Equador, Paraguai e Peru. Argentina e Equador já concordaram em dar aos EUA acesso prioritário a minerais críticos, cobre e lítio, e os acordos comerciais propostos os obrigam a favorecer investidores estadunidenses em minerais e energia.
Finanças e dívida. A Argentina removeu restrições ao setor bancário de forma a permitir que bancos dos EUA detenham mais dívida argentina — na prática, mais controle financeiro sobre o país. Os dois governos avançam ainda nas reformas que os credores costumam exigir. A reforma trabalhista argentina, aprovada no início de 2026, alonga jornadas sem pagamento de hora extra, reduz indenizações, e informaliza totalmente o trabalho dos entregadores. No Equador, a flexibilização — que permitiria jornadas de 10 horas com hora extra só depois de atingidas 40 horas semanais — foi tentada por decreto e rejeitada em referendo. Na mineração, a Argentina reduziu a proteção às geleiras, abrindo territórios cuja exploração pode comprometer a água de 70% da população, segundo associações de advogados ambientais.
Agronegócio, fármacos e economia digital. A Argentina de Milei é o exemplo perfeito do que os EUA esperam de um parceiro, e o caso mais avançado nesse terreno. Aceitou o sistema de inspeção dos EUA para a carne — a autoridade argentina deixa de inspecionar a carne vinda dos EUA —, abriu o mercado ao frango estadunidense, ameaçando um setor que gera mais de 115 mil empregos, e se comprometeu a cortar tarifas de mais de 200 produtos, como máquinas, bens de capital e autopeças. Flexibilizou também a lei de patentes, permitindo que as farmacêuticas mantenham patentes por muito tempo e impeçam genéricos mais baratos. Na economia digital, Argentina e Equador devem proibir impostos sobre serviços digitais. Para ilustrar o que isso significa pensemos no proximo exemplo: toda vez que uma loja em Rosário ou uma farmácia em Guayaquil paga anúncios no Instagram ou no Google para alcançar clientes locais, esse dinheiro sai do país e é tributado, se for, em outro lugar. Para ilustrar a escala com um número hipotético: se Meta e Google faturassem US$ 1 bilhão por ano com anúncios para usuários argentinos, um imposto de 3% renderia US$ 30 milhões anuais — receita a que o país agora renunciou, aprofundando a acumulação desigual e a concentração do setor digital. A Argentina autorizou, além disso, a transferência de dados pessoais de seus cidadãos para os EUA.
Quadro 2 — Em cada setor que interessa aos EUA, os governos aliados já entregaram algo.
3. Quanto custa
O resultado concreto é o empobrecimento geral do país. O dinheiro sai dos orçamentos nacionais por três drenos: 1 Exportações mal pagas 2 Juros exorbitantes 3 Mercado aberto
O acesso exclusivo dos EUA rebaixa os preços: menos receita.
Figura 1 — Três drenos no orçamento nacional.
Pagar a dívida a juros altos: dinheiro que sai do país.
Produtos dos EUA destroem a indústria local e os empregos.
É isto, muito concretamente, que a agenda dos EUA custa à população latino-americana: serviços públicos piores, ou extintos; condições de trabalho em deterioração; empobrecimento generalizado.
4. A resposta
A agenda, porém, encontra resistência. Na Argentina, Milei apoia o acordo comercial que favorece investidores dos EUA, mas o Congresso não o ratificou; o país viveu duas grandes ondas de mobilização desde dezembro de 2023 — contra a Lei Ômnibus em 2024 e contra a reforma trabalhista em 2026, com quatro greves gerais da CGT ao longo do governo. No Equador, depois de um mês de greve nacional contra o fim do subsídio ao diesel e a concessão mineira de Loma Larga, os eleitores rejeitaram nas urnas, em novembro de 2025, a instalação de bases militares estrangeiras. Na Bolívia, em menos de um ano de governo Paz, sindicatos, camponeses e povos indígenas forçaram a anulação do decreto que eliminava os subsídios aos combustíveis e a revogação da Lei 1720, sobre terras.
Os ciclos de mobilização nos três paises citados mostra como a perda de soberania gerou contradições que já estão gerando resistências. Claramente, há uma rejeição popular ao custo nacional da política imperialista dos governos de direita, a pesar de esta rejeição não se entender como uma luta anti-imperialista. Concretamente ela é, mas a falta de politização nos nossos processos políticos, ao não enfatizar o significado concreto da perda de soberanía, compromete e debilita o alcançe político e potencial transformador destas lutas em chave anti
imperialista.
Os chefes de Estado do campo porgressista elevaram o tom em reação as diversas provocações do governo Trump. No 7 de Setembro, Lula afirmou que o Brasil não é e não será colônia de ninguém e, na convenção do PT, disse que nem chineses, nem americanos, nem franceses vão “meter o dedo” nas terras raras brasileiras. Sheinbaum declarou que nenhuma potência estrangeira dirá ao México como governar-se, e Petro evocou a espada de Bolívar diante da ameaça de uma intervenção como a de Caracas. As afirmações de defesa da soberanía e de rechaço ao intervencionismo são importantes e marcam uma posição que os distingue da direita a nível continental. Porém não contribui a politização do povo porque se fala de soberanía de maneira abstrata e vaga, de tal forma que o grosso da população não tem dimensão do que implica para o seu futuro económico pessoal, para a sustentabilidade dos ecosistemas e biomas onde habitam, e as condições de vida no nosso continente a perda de soberanía.
Para concluir
Soberania, concretamente, é controlar:
Petróleo Minerais Dívida Alimentos Medicamentos Dados É isso que está em jogo. A intervenção é o meio; o que importa é o fim.
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