9 de jan de 2016

O que é isso companheiro? Comentários sobre questões que envolvem Israel e a Palestina - por Mauro Nadvorny



O que é isso companheiro?, ou o devaneio intelecto-idealista.
Acho que a discussão a respeito da viagem de Jean Wyllys abriu uma porta para diversos temas de interesse da esquerda. Claro que falando assim fica um pouco nebuloso, afinal que esquerda? Vamos admitir que de esquerda compreendamos os que não se alinham com a direita, apenas para fins metodológicos.
Eu li diversas manifestações de membros da esquerda, de moderados a extremistas (sem ofensa). E vejo que todos eles cometem o mesmo erro que me incomoda muito, são incapazes de propor um caminho de conciliação.
Invariavelmente os críticos de esquerda se referem a Israel com o Estado Sionista e já aí mostram sua total ignorância a respeito do sionismo quando não compreendem que existem diversas correntes sionistas, da extrema direita a extrema esquerda. Talvez se eu lembrá-los dos Montoneros da Argentina, possam fazer uma reflexão. Quando dizemos que alguém é peronista, nos referimos a esta pessoa como de esquerda, ou de direita?
Pois para estes intelectualóides, o sionismo seria um movimento de direita nacionalista, uma grande inverdade já que como eu, sionista-socialista, existem partidos, ONGs e grupos que assim se reconhecem. Para estes intolerantes eu sugiro a leitura de Nahum Syrkin, Ber Borochov e Aaron David Gordon para começar. Talvez assim entendam que para nós o Estado de Israel somente faria sentido se fosse criado como parte da luta de classes através da classe trabalhadora judaica estabelecendo-se na Palestina e construindo um estado com fazendas coletivas no campo e com um proletariado forte nas cidades. E assim foi, mas o tempo trouxe mudanças e hoje os partidos de direita são maioria.
Vejo que alguns aludem a criação do Estado de Israel como o grande momento do movimento sionista de direita pelo fato de que ali teve inicio o expurgo de parte da população palestina, momento este que ficou conhecido como Nakba (catástrofe). Dito assim, não há como ser simpático aos sionistas que expulsaram cerca de 600.00 palestinos de suas casas e de suas terras. Mas apesar o fato é que dois estados foram criados pela ONU, mas somente um se estabeleceu. Quem liderava o movimento judaico, era o sionismo socialista e foi ele que combateu os grupos paramilitares de direita e estabeleceu o Estado Judaico. Os cidadãos árabes do território, hoje chamados de palestinos e a maioria do mundo árabe não aceitaram a partilha e a história mostra que este foi o grande erro, senão o maior de todos do movimento palestino. Claro que hoje falando pode-se compreender as razões de não terem aceitado, os motivos que levaram a isso, o momento histórico que se viva etc. Nada disso altera o fato de foi a isso que eu chamaria de verdadeira Nakba. Fica tudo muito simples quando só um lado pousa de vítima e atribui ao outro a culpa de seu infortúnio. Mas aqui existem dois lados, e todos são vítimas de suas escolhas.
Ainda voltando no tempo, importante lembrar que naquele período nunca existiu um movimento de esquerda árabe representativo na palestina que tivesse identificação com a União Soviética ou qualquer outro país comunista e visse no socialismo um futuro para seu estado. Mesmo nos dias de hoje, os grupos de esquerda na sociedade palestina são ínfimos.
Claro que em meio a esta visão de sionismo vem a baila o antissemitismo. Assim como nem todo judeu é sionista, claro que nem todo antissionista é antissemita. Mas afirmar que os sionistas se uniram aos nazistas para levarem judeus e seus pertences para a palestina, é de uma deficiência ética e moral que não faz justiça a memória dos 6 milhões de judeus que foram mortos. Todo momento histórico precisa ser estudado a luz dos acontecimentos da época. Aproveitar-se ideologicamente de acontecimentos retirados de seu contexto histórico e que nos dias de hoje seriam considerados repugnantes, para justificar razões pelas quais estes mesmos acontecimentos seriam parte de uma conspiração, nada mais é que uma manipulação banal da história para os incautos.
Como falar disto tudo sem mencionar o BDS. Este movimento de resistência não violenta, busca apoio de pessoas, movimentos e países para um boicote total ao Estado de Israel, financeiro, acadêmico etc. Eu até vejo com simpatia todo movimento de resistência não violenta a ocupação dos territórios. Vou além para dizer que posso até mesmo compreender ataques violentos contra soldados presentes nos territórios. Eu disse compreender, apenas isso. Mas o que não compreendo é como o BDS não se manifesta contrário quando os ataques são dirigidos exclusivamente aos civis em Israel.
Talvez o maior erro do BDS seja justamente não contrapor ao seu boicote a construção de caminhos que levem a Paz. Ele é um movimento que tenta trazer o boicote levado a cabo contra a África do Sul, agora contra Israel. Israel não se compara a África do Sul, a começar pela democracia. Cada cidadão vale um voto. Outro erro é quando afirmam que só haverá justiça quando os refugiados retornarem a seus lares. Ora, não existe precedente histórico para isso, e é ponto pacífico da inexequibilidade desta ação. Para se almejar a paz é preciso ter consciência de que na atual conjuntura não vamos conseguir tudo o que desejamos. Muita coisa terá de ser revista, mas este será o papel dos negociadores.
Quando se fala em conflito, logo vem a mente mediação para sua solução. Estes companheiros que hoje detratam o Jean Wyllys, parecem que desejam no fundo perpetuar o conflito e assim poderem continuar destilando suas equivocadas concepções do que significa alcançar a Paz e a criação do Estado Palestino. Vocês não estão ajudando em nada ao tentarem impedir que se construam pontes através do diálogo quando tentam impedir que membros do campo de esquerda visitam a região e vejam por si aquilo que a maioria de vocês só conhece pela mídia. Ou talvez fosse melhor que dissessem com todas as letras, que desejam a destruição do Estado de Israel e sua substituição por um Estado Palestino. Assim, ao menos seria, para muitos de vocês, mais coerente com o que pregam.
A grande ironia para com os sionistas socialistas é que somos chamados tanto pelos sionistas de direita, como pelo campo da esquerda de traidores. Isto é quando os extremos se tocam. A despeito disso, eu convido a esquerda a melhor se informar, melhor estudar e melhor compreender o caminho da conciliação entre israelenses e palestinos. Nós precisamos de apoio para solucionar o conflito, não de incentivos para perpetuá-lo. E quer vocês aceitem ,ou não, somos os únicos que levantamos esta bandeira e pagamos o preço por mantê-la de pé.


Mauro Nadvorny