13 de mai de 2015

Skaf da FIESP diz: "Vou pra Cuba!". Ministro cubano promete preferência a investidor do Brasil frente aos EUA.

O ministro cubano, Rodrigo Malmierca, e Skaf, da Fiesp. / CARLOS VILLALBA R (EFE)

O clima na Fiesp, a federação que é o símbolo da força industrial de São Paulo, era o cenário perfeito para embaralhar as certezas dos extremos do debate político brasileiro. O presidente da entidade, Paulo Skaf, encarnou, nesta quinta-feira, um entusiasta "vamos a Cuba", anunciando uma missão de negócios à ilha –um contraste com os que demonizam as relações de Brasília-Havana. Ao seu lado, a estrela do encontro, o ministro cubano Rodrigo Malmierca (Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro), culpava "erros do passado" por problemas na economia e tratava como mal necessário e administrável o aumento da desigualdade que a chegada do capital estrangeiro na ilha pode causar  –frases capazes de desagradar mais de um ortodoxo defensor do Castrismo.
Malmierca repetiu aos empresários brasileiros e interessados em São Paulo discurso pragmático de defesa das reformas econômicas da ilha que vem fazendo pelo mundo. O objetivo do garoto-propaganda de Raúl Castro é atrair quase 9 bilhões de dólares (cerca de 27 bilhões de reais) em investimento estrangeiro para 246 projetos empresariais. O fluxo de capital externo é a esperança do Governo de tentar levantar a combalida economia, asfixiada pelas importações e dependente dos controversos acordos de oferecimento de serviços médicos, em especial à Venezuela e ao Brasil, com o programa Mais Médicos.
"Se nós damos de graça (saúde e educação) para a população, temos de buscar esse dinheiro em algum lugar. Onde? Na economia, nas empresas, que, não importa que sejam estatais ou privadas, devem contribuir para pagar essas contas", disse o ministro cubano. "O que estamos tentando fazer é tentar chegar a um modelo, que chamamos socialismo, que seja eficiente, sustentável e próspero", continuou, afirmando que o embargo americano, mas "sobretudo os erros que cometemos" poderiam afetar e que o interesse do investidor estrangeiro pelo país.
A audiência que lotou o auditório da Fiesp, a quem Malmierca falou em português, estava ansiosa para saber se o investidores brasileiros e os latino-americanos poderiam esperar tratamento especial do Governo cubano. A preocupação era ser atropelado pela voracidade das delegações dos EUA que chegam a Havana para prospectar negócios após o degelo das relações bilateraisem dezembro passado.
O ministro cubano não os decepcionou e sinalizou que Havana está disposta a recompensar o envolvimento estratégico do Brasil com a ilha –além do contrato do Mais Médicos, o Brasil, por meio do BNDES, financiou o porto de Mariel, a porta de saída da espécie de zona franca especial que Havana quer criar.
"Se uma empresa é americana e outra brasileira, nós vamos avaliar o projeto por suas bondades, por suas especificidades. Não vamos castigar ninguém, nem facilitar", começou. Mas, na sequência, incluiu uma piscadela: "No entanto, aqui entre nós, que estamos num grupo pequeno, eu posso dizer, porém, que se houver duas empresas em igualdade de condições, nós vamos estar mais inclinados a fazer negócio com uma empresa brasileira, por exemplo, ou de outro país com quem tenhamos relações mais sólidas", concluiu.
Na corrida pelo mercado e oportunidades de negócios, Brasil, Espanha e Canadá, além da Venezuela e da China, largam na frente pelo pioneirismo na ilha. A romaria de empresários americanos em Havana nos últimos meses tem parada obrigatória na embaixada brasileira, conta o embaixador Cesário Melantonio Neto, e na sede da BrasCuba, a joint venture entre a brasileira Souza Cruz e uma estatal cubana para produzir cigarros na ilha, uma pioneira nos negócios.
O co-diretor da BrasCuba, Alexandre Carpenter, foi escalado nesta quinta-feira na Fiesp a defender os investimentos no país. "Essa é a hora de investir em Cuba. Eu não deixaria para depois, porque logo logo vão chegar os americanos", incentivou Carpenter. Pouco antes, Malmierca havia anunciado os planos da Souza Cruz de se expandir na ilha, com uma nova fábrica para aproveitar as condições fiscais especiais da zona de Mariel. Segundo o jornal Valor Econômico, a ideia da empresa é renovar os contratos com Cuba para estar no país até 2070.