16 de set de 2014

Militares perseguidos pela Ditadura Militar relatam violações aos direitos humanos


PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 15.09.14: Abertura dos relatos da Comissão da Verdade, com a palavra Cezar Martins Secretário adjunto da Casa CivilFoto: David Alves/ Especial Palácio Piratini
O Palácio Piratini foi sede de audiência conjunta e aberta ao público das comissões Nacional e Estadual da Verdade - Foto: David Alves/Palácio Piratini Download HD (1,10 MB)

Ainda com as lembranças muito vivas na memória, representantes de categorias perseguidas durante a ditadura militar, especialmente de 1964 a 1967, foram recebidos nesta segunda-feira (15) no Palácio Piratini. Os ex-oficiais que integraram as Forças Armadas, Exército, Marinha e Aeronáutica, e policiais da Brigada Militar do RS relataram as violações sofridas antes, durante e após o regime militar às Comissões Nacional e Estadual da Verdade.
Durante a audiência pública conjunta, aberta ao público, o secretário adjunto da Casa Civil, Roberto Nascimento, destacou o momento histórico: "É simbólico e uma honra recebermos uma audiência com depoimentos de violações da ditadura no palácio de governo". A atividade contou com a participação do presidente da Comissão Estadual da Verdade, Carlos Frederico Guazzelli, e de um de seus integrantes, Oneide Bobsin. Da Comissão Nacional da Verdade, estiveram presentes a coordenadora do Grupo de Trabalho dos Militares, Rosa Cardoso, e o pesquisador do GT, Paulo Cunha.
Relatos de violações
O capitão do Exército José Wilson da Silva foi o primeiro a ser ouvido. Relatou que depois de muitas ameaças de morte, do asilo político no Uruguai durante sete anos, e de responder a quatro processos políticos, resolveu retornar ao Brasil e se entregar aos que armavam o golpe, em 16 de maio de 1971. Veio preso do Chuí e foi direto para o Dops, em Porto Alegre. "Durante minha prisão em Porto Alegre e em Curitiba, fui humilhado e sofri tortura psicológica, sendo tratado como um bandido. Tenho colegas que foram ainda cassados e assassinados", disse o capitão. A história foi contada em um livro intitulado "O Tenente Vermelho", já na quarta edição.

Já para o capitão do Exército Constantino José Sommer, os anos de chumbo poderiam ter sido evitados: "Nós tínhamos condições de enfrentar os que queriam aplicar o golpe de Estado, mas faltou força política por parte do presidente João Goulart. Durante todo o período que exerci minha função fui perseguido e coagido. Sofri repressão também na universidade e nos colégios que lecionei, tachado como comunista. Em Caxias do Sul fui preso e durante 60 dias fiquei sob vigilância extrema. Quando fui solto, não tinha dinheiro para nada, até minha poupança sumiu do banco. Eu, minha esposa e meus três filhos vivemos a base de água e banana durante meses. Para sobreviver fui plantar", disse o ex-oficial.
Ex-integrante da Força Aérea Brasileira (FAB), Alfredo Daudt Júnior contou que era neto, filho e sobrinho de aviadores, e a ditadura impediu que ele, um jovem com anos de preparação, tivesse uma carreira: “A Legalidade foi um divisor de águas: de um lado os golpistas e do outro os legalistas. Esses, que defendiam a democracia, passaram a ser perseguidos e chamados de ‘comunistas’ e ‘elementos perigosos'”. Essas perseguições, segundo Daudt Júnior, afetaram sua vida pessoal e profissional: “Eles diziam ‘você não vai poder voar em nenhum lugar. Não vá para aviação civil que temos influência também”.
O ex-piloto contou, ainda, a história da fuga do pai, coronel Alfredo Daudt, que, durante a ditadura, conseguiu fugir do quartel da Polícia do Exército e se asilar no Uruguai. Na época, os militares acusaram o tenente Lamarca de facilitar a fuga: “Eles tentaram fazer a ligação para incriminar, mas o que nós sabemos é que ele foi passado de uma sala para a outra, e em uma delas tinha uma tábua solta no forro. Ele pulou por ali”.
Ao longo de quatro horas de depoimentos falaram, também, o capitão do Exército Almoré Zoch Cavalheiro, o coronel da Aeronáutica Avelino Iost e o major da Aeronáutica Melquisedec Abrão Lopes Medeiros. O ex-integrante da Marinha Avelino Capitani entregou um relato por escrito às comissões.
O papel das comissões da verdade
Para a coordenadora do Grupo de Trabalho dos Militares da Comissão Nacional da Verdade, Rosa Cardoso, este grupo resistiu a rever o próprio passado, a reconhecer que as graves violações dos direitos humanos aconteceram no interior das Forças Armadas.

"Estes depoimentos que vem sendo colhidos e que integram o relatório conclusivo das investigações, previsto para ser entregue à Presidência da República no dia 10 de dezembro, é o grande legado do trabalho das comissões. É um material rico em detalhes, contado por quem foi vítima de um dos períodos mais cruéis da história. Nosso trabalho não objetiva punir as pessoas responsáveis pelo golpe e que implantaram a ditadura neste país, mas revelar quem são elas".
O coordenador da Comissão Estadual da Verdade concorda: "Cabe às comissões estaduais investigar esse passado, tornar público os crimes cometidos pelos agentes dos sistemas repressivos, mesmo depois da democratização do país. Mais de 60 mil pessoas já admitiram ter sido vítimas daquele regime ditatorial", complementou Guazzelli.
O material ficará disponível no Arquivo Nacional de Brasília e, no RS, no Arquivo Público do Estado, para que historiadores e pesquisadores possam aprofundar o assunto. O relatório conta com depoimentos de várias categorias que vivenciaram a ditadura militar, como trabalhadores, camponeses, índios, religiosos, civis e militares. Esta última categoria com documentos que comprovam as acusações de violações cometidas durante a ditadura.
“Os civis também são responsáveis pelo golpe de 64. Eles pediram apoio aos EUA, definiram as políticas e estratégias, os rumos políticos do país, e deixaram como herança maldita a depressão salarial e a quebra da estabilidade. Obtivemos documentos que comprovam também a participação de empresas do ABC Paulista e do Vale do Paraíba”, complementou Rosa.
Texto: Joice Proença

Edição: Redação Secom